Mandou o relatório para a Secretaria de Segurança. Para implantar os novos parâmetros de patrulhamento daquela cidade precisaria de trinta carros e um helicóptero. Pediu a mais, para o caso de haver cortes, como sempre há: trinta e cinco carros e dois helicópteros. Mas seria fácil. Afinal, fim de mandato e com eleições próximas, o governo raspa o fundo do tacho para que não sobre nada para a gestão seguinte e, se possível, ainda fiquem algumas dívidas. Fácil. Em uma semana teria aquilo de que precisava para fazer um bom trabalho e ser um comandante de polícia que seria lembrado por todos.
Três dias depois, a resposta a seu relatório voltou. Por telefone buscou as explicações.
- Mas vinte carros? Isso é muito menos do que o necessário. Muito menos.
- Sim. Mas você sabe. Os setores de educação e saúde também estão pedindo. O governador procurou fazer a divisão mais justa possível dos recursos e o que sobrou para a segurança foi isso. Tenho certeza de que vai fazer o melhor com o que lhe é fornecido.
- Certo… mas uma lancha? Eu pedi helicópteros. O que vou fazer com uma lancha?
- Ora. Aquilo que se espera. Patrulhar a cidade.
- Não sei se devo lembrar você disso mas não somos banhados pelo mar. Aliás, estamos a 600 quilômetros do mar. Aqui não passa nenhum rio. Não consigo imaginar como espera que eu use uma lancha.
- Também não sei. Mas você é o comandante da polícia. Trate de achar um uso para ela. Os contribuintes têm cobrado muito a boa utilização dos equipamentos e não podemos deixar nenhum deles ocioso. Ainda mais nessa época. Eleições, você sabe.
A lancha veio a reboque em uma das vinte novas viaturas. Foi deixada no pátio do comando. O reboque, que não estava no pedido foi levado mais tarde e o barco ficou ali, meio capenga, desiquilibrada no chão de britas ao lado dos outros veículos estacionados. Meia hora depois, um dos burocratas da secretaria voltou. Trazia um triciclo nos braços.
- O secretário mandou isso aqui também. É um triciclo.
- Certo. Estou vendo que é um triciclo. Um tico-tico. E daí?
- Consta aqui nesse documento que você deve aceitá-lo e incorporá-lo aos novos equipamentos. Ele deve ser usado, hein? Você sabe. Os contribuintes cobrando, as eleições chegando… a imprensa está de olho.
- O secretário realmente sabe o que está fazendo?
- Olha. Este veículo de propulsão humana foi apreendido e incorporado ao patrimônio do Estado. Parece que foi encontrado durante uma das ações de sua equipe junto com outros produtos roubados, com uma lancha inclusive. Alguém deve ter lido triciclo no relatório de apreensão e deve ter pensado em algo motorizado ou coisa assim. Outra pessoa da secretaria pode ter olhado o documento muito rapidamente e achado que era uma boa a polícia ter uma motocicleta de três rodas. O secretário viu a lista de equipamentos disponíveis e, depois de ele assinar a Autorização de Uso Efetivo, a papelada anda e não tem como voltar mais. Você sabe como é, né?
Sim. Ele sabia. A imprensa chegaria dali a alguns minutos para ouvir os novos planos de patrulhamento. Ele ainda não tinha pensado o que dizer da lancha. O triciclo seria fácil de esconder, ainda que ele tivesse assento rosa, rodas azuis e aqueles fiapos de plástico colorido escorrendo do guidão. O documento que o acompanhava pedia para que fosse providenciada a pintura e o aparatamento de acordo com as normas da polícia.
Mas a lancha não havia como ocultar. Teria que pensar em algo.
- E essa lancha, comandante?
Claro que foi a primeira pergunta daquele repórter. Os outros ficaram esperando com ar de curiosidade, os olhos arregalados que os jornalistas fazem nessas horas para disfarçar o tédio de todas as entrevistas coletivas.
- Bem. Essa lancha, não é mesmo? É o que chamamos de Varde - Veículo Automotor de Restrito Dimensionamento para Especialidades. É usado apenas em ocasiões especiais.
- Hm. Mas teria que ser uma ocasião muito especial uma vez que não temos nenhum grande rio. E o mar está a uns 500 quilômetros daqui.
Aquele repórter era mais esperto que a média. Seria difícil levá-lo no bico.
- Bem. Noto que você conhece a geografia de nosso município. Muito bem. Tem razão, terá de ser uma ocasião muito especial mesmo. Muito especial. Especial mesmo. Mesmo.
Segundos de silêncio. Todos olham para ele. Até que uma repórter lá do fundo resolve dar cabo daquilo.
- E que ocasião seria essa, comandante?
- Bem. Vocês sabem que o clima está muito complicado e as catástrofes estão cada vez mais sérias. Alguém aqui viu Impacto Profundo?
Os jornalistas se entreolharam.
- Num caso como aquele, em que um grande meteoro cai sobre a Terra, uma tsunami, essas ondas gigantes, pode atingir centenas de metros de altura e avançar milhares de quilômetros pelo continente. E o mar pode chegar até aqui. Em crises tais, os saques são comuns e queremos estar prontos para perseguir os meliantes em caso de fugas aquáticas. Já temos dois homens em treinamento para pilotá-la. Mascarenhas, assuma seu posto.
O policial barrigudo subiu com dificuldade pela lateral e colocou as mãos no timão imitando o cara do Miami Vice do qual assistiu um único episódio. Vários cliques dos fotógrafos em volta de Mascarenhas, o galã.
Os jornalistas anotavam. Pareciam satisfeitos. “Puxa, essa foi difícil”, pensou o comandante.
- E esse tico-tico, comandante?
Quem havia deixado aquilo ali? E quem tinha conseguido fazer a pintura nos padrões da polícia tão rápido?
- Esse… esse… é nosso veículo de propulsão humana para pequenas ocasiões. É um triciclo, movido a pedal. É uma espécie de mascote, mas totalmente operacional. Quer experimentar?
O repórter era daqueles desconfiados. Por isso resolveu montar naquilo. Flashes dos fotógrafos em volta do repórter que chegou a dar umas pedaladas. Quando andava, o triciclo fazia plim-plim-riplim. Uma campainha embutida.
- É. Parece bom, comandante.
- É excelente e muito útil.
Os jornalistas anotavam tudo. No dia seguinte, as manchetes falavam de coisas como o comando da polícia prever a possibilidade de tsunamis para os próximos meses e o uso de viaturas miniaturizadas como a nova tendência para a segurança pública. O público ficou agitado com a possibilidade de uma tragédia, mas tranqüilo ao saber que as autoridades estavam totalmente preparadas.
O comandante recebeu uma carta de congratulações do secretário pelo bom trabalho, mas no dia seguinte pediu demissão do cargo. Juntou suas economias e pensava montar um boteco em algum lugar. Que, de preferência, tivesse mar.




3 comentários até agora ↓
1 Bob // 27 1 2006 às 19:16
burrocracia da máquina pública.
ótima caricatura…
2 Islane // 27 1 2006 às 20:42
Eu, realmente, fiquei até com um tantinho de dó desse comandante. Mas só um tantinho… Coitado, ter que inventar coisas absurdas como essas…
E que imaginação você tem, hum?! hehehe
Beijos.
3 Marina // 2 2 2006 às 12:12
hauhauahu
adorei muito como ele se saiu.
imagina a notícia:
“Tsunami deve atingir nosso país” prevê comandante da polícia…
imagina só…
hauhauhauhauhaua
muito bom mesmo.
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