O aspirante a eremita

11 1 2006 por Alessandro Martins
· 8 comentários

Agora, não para sempre, eu sou o aspirante a eremita na porta da caverna, no limite entre o sol e a sombra. Mantive a esperança de não mudar enquanto pude e chegou a hora de desfazer qualquer ilusão. Sem carinho de mulher, sem sexo de fêmea, sem nada, é o momento de recolher-me um tanto. Não pode restar-me nem a inveja daqueles que nesse instante celebram a vida.

Sinto-me ultrajado sem ter sido, por isso ultrajo-me, na verdade, a mim mesmo. Sujo-me na lama que eu mesmo criei com lágrima e terra. Ofendi quem amava e é assim que, mais das vezes, se ofende. Nunca ouvi falar de desditas duradouras e dolorosas a totais desconhecidos. Por isso, cheguei a buscar o abraço da amiga e ela não me ouviu. Seus ouvidos estão longe. De minhas lamúrias e de qualquer possibilidade amistosa sequer. Meu ferrão, agressivo, voltou-se contra mim.

Preciso buscar a profundidade sombria da caverna. Preciso encontrar o que há de escondido nessas paredes, a história secreta de meus passos contada em desenhos que eu nem lembro ter feito. Algo que me explique como cheguei aqui e que me aponte para onde ir.

A busca do meu próprio perdão é o meu maior empreendimento. Andar sem me cortar na própria lâmina que deveria me proteger, minha meta. Mas ainda surpreendo-me com algumas fontes de sangue, cortes fininhos, que não matam, mas incomodam e sujam a roupa branca de sutil hemorragia.

Escrevo minha história com uma caneta e meu pau, numa busca infinita do que me complete, como se completo já não fosse. Com a caneta tento sair o para o mundo e com meu pau tento entrar em outros mundos. Falta-me saber - saber mesmo, não apenas em palavras - que já estou no mundo. Acho que essa é a fonte de meus maiores e mais terríveis defeitos.

Tenho essa urgência inútil e inacabada de ser o maior amor da vida de uma mulher e acabar sendo o maior amor da vida de todas que passaram pela minha e elas acabarem todas como os maiores de minha vida. Mas bastava uma. Tenho uma necessidade doentia de amar e ser amado, quando amar e ser amado não deveriam ser necessidades, porém apenas algo que flui como a água da chuva que busca a terra e, na terra, encontra as raízes. Por isso carrego comigo os cadáveres de amores que matei e, mais triste, os que deixei morrer. Acho difícil ser homem ou mulher sem carregar alguns. Porém, gostaria que descansassem em paz, eles, os amores.

O mundo agora é tão cheio de possibilidades que a liberdade assusta. A liberdade sempre assusta embora todos a busquem mesmo sem saber o que é essa abstração. Conhece-se apenas o medo e a euforia que ela provoca. A liberdade é uma queda livre, mas as nuvens não permitem ver onde está o chão ou mesmo se existe o chão. Pode ser que um impacto pare seu corpo ou pode ser que não. A liberdade é a incerteza do próprio fim da liberdade, como uma serpente a devorar a própria cauda.

Por isso estou na porta desta caverna. Para me prender um pouco, enclausurar-me pelo menos por alguns instantes. Mas mesmo isso é uma escolha e, por ser escolha, é livre.

Fechado na escuridão, descobrirei meu caminho. Sinto-me cansado, doente e com 99 anos de idade, mas sei que em algum lugar aqui há uma criança a querer voltar a superfície. Ela vai voltar. Estou no extremo do mundo. Mas no extremo sul, todas as direções são norte. E no extremo norte, todas as direções são sul. Só tenho, portanto, um lado para ir. E irei. Daqui a pouco.

Você vai gostar...

  • Cracatoa Simplesmente Sumiu
  • O Apanhador no Campo de Centeio Extra/Ordinary Objectos 2 Plataforma

    Clique nos livros para comprar. Quero ver mais indicações.

    Tags: Crônicas e contos

    8 comentários até agora ↓

    • 1 Cida Viana // 12 1 2006 às 1:45

      Que texto?!?… Gostei, gosto dos textos intimidadores, que nos levam a pensar: “esse cara escreveu o que eu queria dizer…”. Ô Alexandre, dá uma olhadinha nos comentários sobre o texto Insones e vê se me responde. Abraços, Cida Viana(Guarujá-SP)

    • 2 cidaviana // 12 1 2006 às 2:20

      Dei mancaca, acabei de ler seus e-mails do dia 02.01. Vou achar ótimo que você leia o texto na frente da sala… Cida Viana

    • 3 Marina // 12 1 2006 às 10:46

      querido Alê, que essa criança volte logo!!!!
      =)

      *a necessidade de amar e ser amado nunca passa…

    • 4 Islane // 12 1 2006 às 22:52

      Então vai, moço. Vai ser feliz. E logo.
      (porque você merece)

      Beijo.

    • 5 Thi // 13 1 2006 às 6:29

      Belas palavras, amigaum.
      Tenho o mesmo problema, escrevo minha vida com meu pau e pena (pena e pau, sei la), mijo nas paredes os acontecimentos diários e tenho o estranho prazer em cutucar pessoas com penas….

      Orgulhosamente,
      Thi

    • 6 robson // 16 1 2006 às 14:45

      qnd eu li esse texto me veio um trecho de uma conversa… vou ver se cabe aqui

      Faye: Pra onde você vai? Por que você está indo? Você me disse para esquecer o passado porque ele não importa mais… mas é você que está preso ao passado!
      Spike: Olhe nos meus olhos. Um deles é falso porque eu o perdi em um acidente.
      Desde então, eu só vejo o passado com um deles, e o presente com o outro.
      Então o que eu vejo não é real, são apenas imagens…
      Faye: Não me diga essas coisas. Você nunca me contou sobre você, não comece agora !
      Spike: Eu me sentia como se estivesse vendo um sonho, do qual eu nunca acordava. E antes que eu percebesse, o sonho tinha acabado.
      Faye: Minha memória finalmente voltou, mas nada de bom veio com ela. Não há nenhum outro lugar para o qual eu possa voltar.
      Este é o único lugar para o qual eu posso ir. E você está partindo dessa maneira! Por que você está indo? Para onde você vai? Por que está fazendo isso? Jogar sua vida fora, por nada?!
      Spike: Eu não estou indo lá para morrer… Eu estou indo para descobrir se eu estou realmente vivo. Eu preciso fazer isso…

    • 7 Dani // 17 1 2006 às 14:19

      Vc está mais intenso esta semana, não?
      Eu gostei quando vc falou das mulheres… de todas elas que são igualmente especiais na sua vida e da necessidade de tê-las.
      Mas o que mais gostei foi quando vc disse que só bastava uma. É exatamente como me sinto há um bom tempo, mas ainda assim não houve o que me bastasse… ainda.

      bjk’s

    • 8 ALicia // 20 7 2006 às 23:03

      hoje q eu li o texto e vi a data…

      chorei… sabe como eh essas mulheres sensíveis de tpm rs

    Deixe um comentário