Pouco vi de outros países em minha vida. Muito pouco além de minha cidade. Até conheço estradas, aduanas e fronteiras. Mas nunca me aprofundei para muito além das feias terras adjacentes ao meu território. Isso não me impediu de conhecer o canto de alguns passarinhos. Até tive um que mantive em liberdade, comia em minha mão.
Passarinho é coisa sem cerne e sem sentido. Por isso, só vive no que é fora. Não se abarca. Passarinho em gaiola é artifício inventado e certamente não existe. Ilusão para velhos sem assovio. Há muita água - escondida - no deserto, dizem. Há que se cavar mais. Mas não muito, sob o risco de encontrar as pequenas aves debaixo das toneladas de areia.
Gente é coisa que não tem, mas busca cerne, busca sentido. Gente se vira pra dentro e não voa. Só conheci gente dentro de gaiolas até hoje. Ainda assim sorriem vez em quando.
Talvez eu sempre tenha procurado ser o cara das redondezas, das regiões metropolitanas, que vai com seu veículo no máximo até onde um tanque cheio permite. Um sujeito que acha que se conhecer o próprio bairro conhecerá o mundo. Nunca fui muito além para fora, talvez não tenha também ido suficientemente para dentro. Às distâncias distantes, se chamado, há o risco de eu não ir.
E nessas lidas, um dia, perambulei por dentro do meu próprio deserto. Era sabido que, nele, nesse mundo sem porta ou muro, mas fechado, havia coisas perdidas, gentes perdidas e um mundo inteiro perdido. Vagar no interior do próprio deserto é para quem não tem medo do que pode vir a encontrar ou para quem já ficou louco ou para quem nada mais tem a perder. No fundo, todo mundo está frito, mas nem sabe.
Na paisagem árida, ao meio-dia ninguém tem sombra e o dia racha o couro do cristão bem no meio. E, ao pôr-do-sol, ela, a sombra, se alonga até o horizonte. Um lençol negro arrastado no chão poeirento preso a pés que a custo se levantam entre um passo. Um pescoço que se desenha curvo na poeira e uma cabeça pesada, cheia de descontentamentos.
No deserto, você pode passar um dia inteiro sem encontrar ninguém. Conversei muito com as pedras. É uma forma de, ali, obter os conhecimentos, as direções. Existem as maneiras dolorosas. Embora na tevê só se vendam as formas deliciosas.
Os arbustos têm espinhos. As flores são delicadas, mas intocáveis. O que isso quer dizer? Que o engano vem, pontiagudo ou sedoso, mas vem. O certo, certo mesmo consiste no caminhar, mesmo à noite sob as estrelas, ferido ou acariciado, caminhar. Debaixo de mil véus de certezas desapontadas, talvez haja, debaixo dos panos e das ilusões da febre, a grande verdade que todo mundo procura.
A solidão possui mais braços que nomes. É mais comprida que grossa e, de fato, às vezes é fininha como uma tripa. Mas tem que se passar por ela, como um equilibrista. Sequer há a opção da queda. Nenhuma pessoa na platéia entenderá seu grito, se houver. Que grito, se ele não cai e se mantém cambaleante, mas rente ao fio? Alguns dirão que a tal platéia são fantasmas. Sim, o deserto é mais miragem que areia. A indiferença dos camelos frente ao viajante que corre em direção ao nada. Os camelos sabem.
Não desprezo o mundo nem sou por demais modesto. Acho sim que viagens podem ensinar muitas coisas. Mas é apenas mais uma opção entre se mover e ficar parado. Quem viaja opta. Ainda assim, antes mesmo de ter chegado já quer partir para outros recantos talvez mais apelativos, ver janelas quem sabe mais adjetivas.
Algumas escolhas, por outro lado, não são exatamente assim, pois fazem parte da pessoa de uma maneira tão forte que não haveria como ser de outra forma. Então, se quiser, chame de limitação. Cada um tem a sua.
A minha é essa. Não porque não sei voar, mas porque tenho esse jeito de raiz. Não sou um cara viajado. E até acho estranha essa expressão. Afinal, não são os lugares que viajam pelas pessoas, mas as pessoas que viajam pelos lugares. O que torna as pessoas viajantes e os lugares, sim, viajados. Mas tudo é uma questão de perspectiva. Como quem, de dentro do trem, acredita que são os postes e as árvores que se locomovem enquanto se está parado.
No deserto não há arvores. As dunas são ariscas e se movem de lugar como as certezas. É difícil subir até o topo e, quando se chega, elas não mais estão onde deveriam. E, do alto, às vezes se vê todo o trajeto que se fez. Descobre-se que todo o esforço consistiu num imenso andar em círculo, quando muito uma espiral, com passos cada vez mais para o centro. Não há retas nessa jornada.
O corpo se dobra de sede e o espírito também. De joelhos, a observar os passos vagos e em vão, e bebe-se as últimas gotas de água para além da água como se o líquido tivesse alma. Por essas veredas, não se viaja para chegar. Viaja-se apenas por viajar. Às vezes alguém só se vê nessa situação extrema, quando pensava que ia para outro lugar e, num clique, passa a ver tudo exatamente como é.
Nesse instante, o deserto não é esse palavrório nem essas metáforas de quando a vida parece que vai nos abandonar saindo pela nuca. Isso é bobagem, drama, exagero e excesso. O deserto está bem aí na sua frente, ao seu lado. Ele o cerca.
Para, de repente, flagrar-se no deserto, basta surgir sem aviso o desejo do oásis.
Confissão de um viajante do deserto
12 11 2005 por Alessandro Martins
· 5 comentários
Tags: Crônicas e contos




5 comentários até agora ↓
1 Shana // 15 11 2005 às 16:42
Esse é com certeza, um dos textos mais lindos e bem escritos que ja li na vida, nunca irei esquecê-lo. Até recitei parte dele para minha mãe, ela lhe mandou parabéns, recite você também e verá a poesia de imagens que cada estrofe nos permite criar. Perfeito.
bjos
2 Tiago Pires // 19 11 2005 às 13:44
Muito bom o texto… Gosto muito desse tipo de texto que nos deixa “viajando” nas idéias… parabéns
3 Rui de Lucca // 23 2 2007 às 17:35
Gostei do seu estilo. As metáforas e comparações parecem romper a linha de permissão do texto mostrando beleza não costumeira de se encontrar em textos de blogs.
A propósito, o filósofo Immanuel Kant, um dos mais citados em debates pseudo-filosóficos também não foi nada “viajado” (risos). Nasceu, cresceu, lecionou e morreu na mesma cidade e isso não o impediu de ser um grande filósofo. Quem sabe sua abstinência viajante (!!) não lhe venha como uma dádiva também?
É isso.
Abraço.
Resposta: Obrigado pelos elogios, Rui…
A verdade é que, apesar de às vezes sentir vontade de viajar, viagens me cansam por demais no fim das contas… tudo na medida certa… não sinto essa necessidade de viajar em mim… mas de vez em quando ela vem…
Abraços!
4 PATRÍCIA // 20 4 2007 às 11:47
nossa adorei sua ideia sobre deserto muito sábia.nunca viajei pra fora do brasil, mais adoraria conhecer lugares novos.
até breve.bjos!
5 Alessandro Martins // 20 4 2007 às 12:01
Muito obrigado, Patrícia!
Espero que volte mais vezes mesmo.
Beijos,
do Ale.
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