Cala, amigo Sancho - respondeu D. Quixote -, que as coisas da guerra mais que as outras estão sujeitas a contínua mudança: quanto mais que eu penso, e assim é verdade, que aquele sábio Frestão que me roubou o aposento e os livros tornou esses gigantes em moinhos, para me roubar a glória do seu vencimento, tal e tanta é a inimizade que me tem; mas, ao cabo do cabo, de pouco valerão as suas más artes contra a bondade da minha espada.
De O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes
Ando com uma certa birra.
Descobri que preciso de literatura para viver. Mas não preciso de livros. Juntam muito pó, ocupam espaço, alojam insetos.
Os que tenho, estou dando. Com exceção de alguns mais queridos e outros de que precisarei em breve, todos eles têm passado para outras mãos. Tenho deixado-os em telefones públicos, em calçadas, na frente de edifícios, bancos de praça. Às vezes fico por perto para flagrar a reação de quem os encontra.
O velho
Virei-me por um instante – e um instante pode ser tanto um quanto cinco minutos – e, quando novamente voltei o olhar, lá estava o velho. Sentado ao lado do livro que há pouco eu ali deixara. Um belo e bem encadernado volume de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.
O senhor apoiava as mãos sobre a bengala e sobre as mãos o queixo. O olhar atravessava as árvores e as pessoas que passavam a sua frente. Alheio ao mundo, parecia percorrer os pensamentos como uma aranha inspeciona os fios da teia. Certamente era um velho que pensou muito durante sua vida e, portanto, havia muito por onde perambular.
Pensei na hora que a edição que lhe coube, parte por arte minha, parte por desígnio da sorte, caía-lhe bem, como se fosse uma peça de roupa, uma luva ou um chapéu. Pareciam feitos um para o outro. O tom verde da capa e o couro enrugado daquela face se tocavam como almas. Suas pernas estavam tão próximas do livro que qualquer um que os visse pensaria imediatamente que, de fato, um pertencia ao outro. A intimidade que só as coisas e gentes mutuamente proprietárias têm.
No entanto, ele não tomava conhecimento do Quixote tão ao seu alcance.
Esperei mais alguns minutos. Até que uma mulher, bem mais jovem, se aproximasse dele e o levasse pelo braço. Era cego.
Bibliotecas caseiras e outras bobagens
Não acho que ninguém precise de uma grande biblioteca em casa para viver. Parece excentricidade, para mim, aquelas lombadas e títulos enfileirados. Alguns nunca mais serão abertos novamente. Outros, cujas palavras sequer chegaram conheceram a luz.
Um livro parado numa prateleira tem tanto valor quanto uma concha ou uma pedra velha colhida naquela viagem à praia. Aqueles volumes, ordenados por ordem alfabética ou por assunto, ganharam um cheiro de coisa estúpida para meu nariz.
Sei que posso conquistar hostilidades ao dizer isso, mas é como se seus donos quisessem ostentar troféus, a exemplo de como os caçadores faziam antigamente, ou então intimidar os visitantes com uma suposta cultura. Como quem diz: olhem o que eu já li. A desculpa do acervo para consultas futuras não me satisfaz. Mesmo porque nas bibliotecas pessoais que conheço, a lista de livros por ler supera em muito a dos lidos.
Porém, também não creio que a cultura de uma pessoa possa ser medida assim, pelo número de capítulos que passaram sob seus olhos. Acho que esse fator está mais ligado à qualidade das obras e da leitura. Bastariam umas vinte, se tanto. Bem lidas e relidas.
Jorge Luis Borges
O escritor argentino Jorge Luis Borges assumiu a Biblioteca Pública Nacional da Argentina em 1937. Amante da literatura, escreveu em um conto, A Biblioteca de Babel, sobre um compêndio labiríntico, caótico e interminável de livros. Nele, uma pessoa poderia encontrar todas as respostas, escondidas em infinitas páginas, guardadas por um homem que passa seus dias na angustiante tarefa de ler em um volume o código que resume e contém todos os outros e que, retido entre capa e contracapa, assemelha-se a um deus.
Deixou a direção da biblioteca, a argentina, não a de Babel, em 1946, já bastante doente dos olhos. Aos 50 anos, Borges estava completamente cego, a exemplo de seu pai que perdera a visão quando o escritor ainda era menino.
Foi uma ironia dar a ele tanta coisa para ler justamente quando os olhos começavam a lhe faltar.
O Engenhoso Fidalgo
Sempre causou-me algum espanto o fato de Dom Quixote ter ficado louco justamente pelo excesso de leituras. Os romances de cavalaria, em que homens honrados, dentro de pesadas armaduras, montados em seus cavalos salvavam as donzelas e saíam pelo mundo a propagar o bem em nome de Deus e da honra teriam causado a sandice na fraca cabeça do nobre.
Por outro lado, Dom Quixote via gigantes onde Sancho via apenas moinhos e suas pás a girar movidas pelo vento. Talvez ele visse demais, por conta de sua insanidade. Porém, gosto de, vez ou outra, prefiro crer que o fiel escudeiro visse de menos, enquanto o Cavaleiro da Triste Figura visse as coisas na medida correta. Não era ele, magricela sobre o estropiado Rocinante, quem tinha alucinações. E sim o mundo que de repente ficara mais obscuro, difícil de enxergar por entre as brumas de uma suposta verdade.
É mais loucura não salvar Dulcineia em perigo, duvidando de sua existência, que fazê-lo ainda que em trapos.
Medidas
Essa história de se medir alguém pelo tamanho de sua biblioteca faz lembrar daquele personagem de uma das obras de Sartre - autor que acho um saco como romancista. O sujeito decidiu se instruir e, para isso, freqüentava a biblioteca pública de sua cidade e emprestava todas as obras dos autores ali catalogados, de A até Z, sem exceção. Estava feliz pois já estava na metade da letra A ou coisa assim. Muito da erudição exibida nos salões hoje em dia não passa disso.
Ou, então pior, esse verniz nada mais é do que páginas e capas colocadas lado a lado, a exemplo das bibliotecas particulares.
Livros devem circular. São muito caros e inúteis, como objetos, para ficarem mofando em uma estante. Se eu precisar ler um daqueles dos quais já me desfiz - seja por necessidade de pesquisa ou por aquela vontade súbita de lembrar de determinado trecho - tenho certeza de que posso consegui-lo comprar novamente, achá-lo na biblioteca ou consegui-lo com um amigo. Apenas essa tarefa já será suficientemente divertida. Além do mais, os poucos livros do mundo que merecem ser relidos são fáceis de encontrar.
Só descansarei quando tiver em casa no máximo dez volumes.
Diálogo
Sempre achei que, nos livros fechados, os personagens dialogavam palavras outras que não aquelas permitidas aos leitores.
Quixote – Então eram moinhos aquilo que enfrentei?
Sancho – Sim. Tal foi.
Quixote – E o que me acertou, fazendo-me rodopiar no ar e aterrissar lixado no chão, eram pás e não fortes braços?
Sancho – Sim. Tal foi.
Quixote – Então de certo que estou louco?
Sancho - …
Quixote – Cala-te. Você nada entende de gigantes.
Sancho – …
Quixote - Falta dizer que somos personagens de um livro, um livro diferente daqueles que li, um livro de tolices em que sou palhaço dos leitores…
Sancho – Eu não diria tal tolice.
Quixote – Eram moinhos então?
Sancho – Sim. Eram.
Quixote - …
Sancho - …
Quixote – Derrotei algum?
E então a moça que pegara o cego pelo braço olhou aquele livro esquecido no banco. Perguntou alguma coisa ao velho, que negou movimentando a cabeça. Ela voltou até ali e colheu a edição. Certamente, em casa, leu trechos do romance para aquele de quem ela era as vistas.
Sancho – Sim. Derrotou a todos.
Cansado e maltratado, Dom Quixote fechou os olhos e dormiu o sono, como costuma-se dizer, dos justos.
10 comentários até agora ↓
1 Alice // 19 8 2005 às 7:03
Um texto muito sincero e que me fez pensar um monte…
Parabéns!
Beijos
2 Alessandro Martins // 19 8 2005 às 8:31
Na verdade, eu mesmo tenho que pensar sobre isso, Alice… Beijos…
3 Alessandro Martins // 19 8 2005 às 13:56
Eu conheço bem essa caixa retangular cheia de surpresas… e os meus objetos preferidos dentro dela são aquelas com as tirinhas de Deus… ESSE PASTEL ESTÁ POSSUÍDOOOOO!
4 Osni // 22 8 2005 às 10:36
Tbém já deixei de ler livros por não querer tirá-los da estante para preservação. Hoje, só compro livro se realmente tenho intençao de lê-lo e só o deixo ao final da leitura completa. Li, na Gazeta do Povo de sábado, que vc estaria doando alguns obras literárias. Está mesmo? Gostaria de receber algum. Como faço?
Parabéns pelas suas crônicas. São gostosas de se ler.
5 Alessandro Martins // 22 8 2005 às 12:56
Olá, Osni… para ser um candidato a ganhar os livros de presente você pode ir ao link:
http://www.cracatoa.com.br/lembrancas
Abraços e obrigado.
6 Isabela // 24 8 2005 às 2:10
me convenceu, o único q ñ vou dar eh O Apanhador no Campo de Centeio, por q será?
7 cahê // 24 8 2005 às 13:03
outro dia citei a biblioteca de babel pra dizer que falava, não de literatura, mas da nossa perplexidade com as infinitas possibilidades de ser, com a falta de ordenação no que aparentemente ordenamos para não mais que entender-mos.
hahahahaha
entender-mos…
gostei muito, como sempre.
8 Alessandro Martins // 25 8 2005 às 8:40
Parece que Borges sempre se encantou com essas possibilidades infinitas, sua angústia e sua mágica. Acho que ele conseguiu abarcar questões existencialistas de forma mais divertida que os próprios existencialistas - provavelmente estou falando besteira, mas é como eu entendo a angústia de ser livre, descrita por todos aqueles caras. A gente vê isso em Borges também em O Jardim dos Caminhos Que Se Bifurcam e outros contos também. Muito embora ele não se angustie com isso, apenas se assombre. Como nós.
Abraços!
9 iva // 25 8 2005 às 11:04
Nunca compro livros, não que não goste mas o dinheiro é pouco então prefiro gastar com teatro, cinema e outros, os livros? Jamais saberia viver sem eles, é tanta felicidade, empolgação com tanta coisa é estranho ficar rindo atoa só pq de um livro mas é assim que fico… só peço emprestado; normalmente vem com facilidade só lançamentos muito comentados é que são mais difíceis leio um pouco atrasda mas leio e assim vou levando se quiser me doar algo vou amar e pode deixar que eu empresto bastante também, acho que é assim que deve ser.
10 Alessandro Martins // 25 8 2005 às 12:05
E tem gente que tem essa mania de não emprestar livros. Acho o fim. Assim como acho o fim pegar emprestado e não devolver.
Beijos, Iva…
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