Guerreiro

23 7 2005 por Alessandro Martins · 3 comentários


E antes que o primeiro inimigo morto por seu golpe tocasse o solo, o último deles recebia o fio de sua espada. Assim era. Atacassem um por vez e morreriam em seqüência. Atacassem simultaneamente pereceriam a um só tempo.


Há os que veriam a volta dele um cerco de poderosos guerreiros assassinos. Ele via fantasmas. Ao puxarem suas armas da bainha transformavam-se já em lembranças e ele ainda nem tinha tocado o cabo da sua.


Na guerra, sempre se está muito só. Existem amigos que lutam ao seu lado, existem os que estão na retaguarda a dar cobertura, e os que aguardam a sua vez. Ele sabe que vai morrer e saber isso é como estar já sem vida. E, sem vida, nada há a perder.


Na batalha, portanto, sempre se está muito só. Não se possui nada, não se é nada, pois em breve pode-se estar pronto para voltar à poeira. Por mais que haja amigos em toda a parte nessa hora, quando os dois exércitos se encontram preciso é cuidar de si. Quem vê de fora, enxerga duas massas homogêneas que se confrontam. Mas quem vê de dentro, vê a si mesmo no meio de um mundo que perdeu a razão e ainda assim é preciso conservar a própria.


Cercado por poderosos guerreiros assassinos, tocou então a sua arma. Poderia ser uma lâmina que passou por trezentas têmperas, poderia ser uma pedra que encontrada naquele instante, no chão. Fosse o que fosse, isso será seu companheiro até o desfecho. Alguns dizem que o melhor lutador é aquele que coloca a vida em sua arma e por isso não pode ser morto, pois assim engana a fúria de seus inimigos que buscam o alvo errado.


Uma luta nunca faz sentido. Mas, uma vez começada, tem que ser lutada até o final. Ela tem uma lógica interna, como um nó com muitas pontas e apenas uma delas, quando puxada, soluciona a charada. Quem a achar primeiro, vence.


Uma luta dura dez minutos, dez horas, dez dias, se tanto. Entre dez segundos e dez mil anos, tanto faz para a idade do tempo. O universo não gasta mais que uma parcela infinitesimal para esquecer o que se deu naquele campo, apagar de seus registros quanto sangue foi derramado. Gastará apenas um pouco, pouquíssimo a mais, para esquecer o que é sangue, esse líquido avermelhado inventado pelos acasos da evolução. É bom saber disso para que tais segundos efêmeros sejam um pouco mais importantes do que costumam ser.


Por isso, ele traçou um desenho no ar com sua arma. Um desenho sem cor, pois agora seu coração não era negro nem era iluminado. Tinha o matiz do cenário, das árvores, do dia e cada passo que deu, desde o primeiro, incentivado pelo pai orgulhoso, até aquele, o conduziu não para outro mas para aquele traçado.


O ar assoviou ao sentir o metal que navega por sua presença invisível. Ele é um pouco menos resistente que a pele e os músculos e os ossos de qualquer um daqueles ali presentes. Tudo por ali era muito delicado e até mesmo os escudos, as espadas, as armaduras eram frágeis. Tão frágeis que se desmanchariam à mínima diferença de temperatura. Cada partícula busca a estabilidade e cabe saber desequilibrá-las a seu favor.


Os pés pisavam o chão, esquecidos das folhas da grama e esquecidos de si mesmos pois o todo supera em muito as partes que nada fazem além de serem partes levadas pela totalidade. Mas por vezes o grande momento não está no golpe bem desferido, mas no melhor lugar para se apoiar e suportar a própria violência.


E, se tudo isso falhar, é bom ter uma boa lembrança para o último segundo. Pode ser o rosto da mulher amada que não mais o verá, o sabor do bolo preparado pela avó, um quarto onde se aconchegou em uma noite fria, um pôr-de-sol que nunca mais se repetiu, o som de um riacho da infância, o cheiro do mar, as plantas onde se deitou para contemplar as estrelas uma noite. Esse último segundo é aquele em que, antes do total desconhecido, é preciso mostrar a si mesmo que valeu a pena. E a verdadeira vitória é, mesmo derrotado, saber isso. Que valeu.


Mas ele, depois de olhar nos olhos de cada um dos que o cercavam, ainda vivos, então de costas para toda aquela cena, ouviu o som do último corpo cair ao chão. Com um gesto seco no ar, limpou de sua espada o sangue que espirrou no chão próximo aos seus pés, fazendo um risco vermelho, úmido ainda, retilíneo e suave. Guardou-a. E seguiu seu caminho.


Depois de uma luta, é sempre como se nada tivesse acontecido. Pois sempre haverá outras.Elas nunca acabam. Se acabassem, não haveria sentido em ser um guerreiro.

Você vai gostar...

  • Nota de falecimento
  • O senhor João Francisco Martins, 57 anos, meu pai, faleceu neste domingo, às 15h30. Neste último ano, durante o qual enfrentou o câncer, esteve sempre de cabeça erguida, satisfeito e sorridente
  • Escritores na Desciclopédia, a Wikipedia do mundo bizarro
  • A Desciclopédia é a versão "mundo bizarro" da Wikipedia. Como sua versão kriptoniana, a Desciclopédia aborda diversos assuntos em verbetes elaborados pelos próprios usuários. Com a diferença de que, assim

    Tags: Livros e afins

    3 comentários até agora ↓

    • 1 cahê // 9 8 2005 às 14:42

      Rapaz, você tem estilo!

    • 2 Camila // 13 8 2005 às 21:34

      Bah esse sábado eu to fazendo um intencivão das crônicas do cracatoa…e tô super maravilhada, Alessandro vc tah de parabéns seus textos são otemos eu estou a ponto de pedir um autografo…to fanzoca de carteirinha

    • 3 Alessandro Martins // 14 8 2005 às 12:42

      Que bom, Camila… estou abrindo aqui meus e-mails e já vi que tem um monte de comentários seus… daqui a pouco você vai ser mais especialista em Cracatoa que a gente mesmo… obrigado pela preferência… vou agora mesmo olhar os outros para ver o que você achou… Beijos carinhosos para você!

    Deixe um comentário