Fabrico um elefante O meu bicho de estimação é uma baleia e eu nunca a vi. Mas sei que existe. Vive fora do meu quintal, porém, assim mesmo a estimo. Por isso, de estimação. Como negar? Neste instante mesmo, gigantesca, divide ao meio o mar que a circunda. Com a cauda, para lá e para cá joga a água para oriente e ocidente e impulsiona-se à frente, ao norte. Não, ao sul. Não. Para onde queira. Minha baleia jamais encalhou. Detestaria sair no Jornal Nacional. E corre tanto dos navios baleeiros, que a matariam, quanto dos navios do Greenpeace, que a protegeriam. Ela não quer a selvageria nem o paternalismo piedoso. É um bicho selvagem e acha que os humanos sim mereciam ter mais quem os amparasse. Acredita na fragilidade dos homens que só de longe viu nas praias, em aglomerações. Nem por isso engoliu Pinóquio e seu avô ou Jonas. Crê nessa delicadeza e por isso a evita, como quem sabe que, se tocá-la, a destruirá. Tivesse mãos, veria flores sem arrancá-las da terra. Nunca viu flores. Ama artes. Se a caça às baleias nunca ter acontecido implicasse a não existência do romance Moby-Dick, de Melville, abriria mão do sossego e daria um jeito de inventá-la. Ela é uma ilha viva, obesa de coisas que ainda não viu e nem sonha ver. Nem precisa ver. Em seu dorso, que respira lentamente, poderia ser projetado um filme. De Carlitos, por que não? A baleia bóia como um barco de carne, osso e esguicho. A água que sai do alto de sua cabeça é como o dos desenhos animados, a única árvore que arvoresce nos oceanos e em seus galhos uma criança nadaria com a alegria dos que flutuam no inimaginável. Seus olhos são o espelho da alma. Não da sua. Mas de um pequeno grilo que vive em Sapezal, no Mato Grosso, uma cidade tão obscura que para chegar lá você passa por uma reserva indígena e precisa pagar dez reais de pedágio pela ida e dez reais de pedágio pela volta para os índios bacawais e seringais. Esse inseto é a sua única ligação com a terra, insuficiente portanto para dar-lhe desejos de botar os pés, que não tem, no chão. Por outro lado, o grilo tem estranhas vontades de se atirar no riacho. O coração dela bate poucas vezes por minuto. Mas pulsa forte. É possível ouvi-lo nos momentos mais quietos da noite. Se estiver próximo ao mar, com isso, é fácil saber em que direção ela se encontra, como um sonar. Perturbadora, às vezes, sua existência. Não importa a situação da minha vida ou a dos que me cercam ou a dos que não me cercam mas que são meus contemporâneos. Que eu sofra, que eu ame. Que se matem os povos entre si ou que se congratulem festivos. O seu nadar é independente. Aconteça o que for, a massa fabulosa corta indiferente, mesmo à noite, a água gelada. A baleia é um ato alheio às alegrias e às desgraças, mas é mais consciente que o sol ou que uma montanha. Meu animal de estimação - e provado está que o estimo, pois o conheço - é tão grande que não se pode dizer que nade, mas que, sim, navegue.
de meus poucos recursos.
O Elefante,
de Carlos Drummond de Andrade,
em A Rosa do Povo.
Ela não tem casa ou abrigo e está sempre ao relento. Sua barriga, porém, não conhece brisa ou afago mas é feliz e com umbigo.
Mesmo figurativamente não caberia em mim. Mas enche meu coração de mar.
A baleia
14 7 2005 por Alessandro Martins
· 5 comentários
Tags: Crônicas e contos




5 comentários até agora ↓
1 Alessandro Martins // 14 7 2005 às 16:21
Para variar a gente se entende sem falar nada. Rs…
2 Solange Iwata // 16 7 2005 às 7:17
Concordo com o Alessandro martins e acrescento que, chega a ser estranho entender, sentir e complartilhar, sem poder explicar.
Mas acho que todos nós, gostariamos de ter uma baleia de estimação e conhece-la assim, como se estivesse em nosso aquario apontando cada um desses detalhes e toda sua poesia.
beijos e parabéns
3 Alessandro Martins // 16 7 2005 às 11:48
… sim… acho que a idéia foi essa mesma… a de expressar uma sensação, um sentimento com o uso de uma figura que é tão verdadeira - porém impalpável pois distante e improvável - como uma baleia… é bom saber que se é compreendido, Solange… Beijos!
4 iva // 17 7 2005 às 20:12
Eu tenho trauma de cachorros, já passei por todas as situações estranhas, constrangedoras e cansativas que possa imaginar por causa deles, mas me apaixonei pela Rosa, uma cachorra, foi tirada de mim bebe (ela é linda) eu chorei como uma criança, mais ainda posso vê-la pq tá na casa da minha tia, eu realmente naum poderia cuidar dela…a gente conversa, eu até choro com ela e olha que ela já está enorme. Fui mordida duas vezes.
5 Alessandro Martins // 18 7 2005 às 9:28
Eu tenho uma cadela preta, chamada Susi, e um cachorro branco e de manchas pretas chamado Tico. Os dois são vira-latas enormes divertidíssimos e o Tico tem um olho castanho e outro azul. Ele é bem louco. Pena que eu moro em apartamento e eles precisam viver na casa de meus pais. Beijos, Iva.
Deixe um comentário