O pecado da bicicleta

7 6 2005 por Alessandro Martins · 6 comentários

A bicicleta não estava possuÃda!!!

Ele -  Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. A benção, padre. Faz dois meses que não me confesso.


Padre -  Pois não, meu filho… quais foram as suas faltas neste tempo?


Ele -  Tem uma mais grave que eu preciso dizer em especial.


Padre -  Muito bem. Vamos lá.


Ele -  Coloquei um cadeado em uma bicicleta.


Padre -  Mas isso é natural. Ninguém quer ter a bicicleta roubada.


Ele -  Não padre… coloquei um cadeado na bicicleta de outra pessoa.


Padre -  Mas isto é bom… você estava zelando pela segurança dos bens alheios… há pessoas que são mesmo distraídas…


Ele -  É que eu coloquei o cadeado e não deixei chaves… e depois sumi… não apareci mais naquele lugar durante uns dois meses…


Padre (resmungando) - … parece que essa vai ser a história do dia…


Ele -  Como é, padre?


Padre -  Eu disse que você vai ter que me explicar melhor essa história.


Ele -  Foi vingança, Padre. Eu fui vítima do pecado da vingança…


Padre -  Nunca somos vítimas de nossos pecados, filho… somos nós que escolhemos, sabe?


Ele -  Foi o seguinte… eu deixei minha bicicleta presa em um poste do estacionamento supermercado… aí praguejei alguma coisa por eles não terem um bicicletário…


Padre -  Vou contabilizar isso para sua penitência. É muito, muito, muito feio praguejar…


Ele -  Ok… então… eu deixei a bicicleta presa naquele poste e já havia uma bicicleta ali… muito velha… feia… fiquei até com nojo…


Padre- A soberba, meu filho, a soberba… vou ter que anotar isso também…


Ele -  É grave?


Padre -  Gravíssimo!


Ele -  Ok… então…  o banco da outra bicicleta era muito ruim… fiquei até com pena da bunda do dono dela…


Padre -  Eu ia anotar mais um ponto por você ter falado bunda, mas a piedade pelos glúteos - eu disse glúteos - do outro compensou isso…


Ele -  Então, entrei no supermercado… comprei o que precisava… coisa pouca… levou uns quinze minutos…


Padre -  Sei, sei….


Ele -  Quando voltei, a outra bicicleta não estava lá… nem o banco da minha!


Padre -  Você foi roubado!


Ele -  Fiquei puto da cara!


Padre -  Dois pontos. Um pelo palavrão e outro pela ira…


Ele -  Claro que eu liguei as coisas, o cara da outra bicicleta roubou o meu banco… desamarrei a minha e fui empurrando…


Padre -  Que chato…


Ele -  Dei uma bronca no funcionário do estacionamento do supermercado… que falta de atenção!


Padre -  Está vendo? Você foi dominado pela ira!


Ele -  Sem falar que ainda tive que agüentar a brincadeira de um amigo que sugeriu que eu fosse montado no cano…


Padre -  Hehehe.


Ele -  Como, padre?


Padre -  Nada, nada… estou pensando na sua penitência…


Ele -  Tudo bem. No dia seguinte, voltei ao supermercado. Para comprar outras coisas. E então vejo a bicicleta velha!


Padre -  Sério? Então não foi o dono dela que roubou seu banco…


Ele -  Errado, padre. Era a bicicleta velha e estava com o MEU banco…


Padre -  Como você sabe? Não se pode acusar outra pessoa sem saber…


Ele -  Eu tenho certeza… um dia colei um chiclete embaixo do banco e ele estava lá ainda…


Padre -  …


Ele -  … é que um dia eu encontrei uma garota… e pensei que seria uma boa convidá-la para ir ao meu apartamento… não sei por que achei que não seria legal que ela me visse mascando um chiclete… sei lá, não é estético… coloquei embaixo do banco para continuar depois…


Padre -  Luxúria e porquice numa cacetada só. Gravíssimo!


Ele -  Enfim, era o meu banco…


Padre -  E você tomou providências?


Ele -  Fui falar com os funcionários. O cara do estacionamento disse que não sabia de quem era a bicicleta. O gerente não se responsabilizou…


Padre -  Esses supermercados, cada vez mais omissos… nem sei qual seria a penitência para eles…


Ele -  Fui até aquele ferro-velho… tentei roubar o banco, mas ele tinha preso com a corrente…


Padre -  Roubo. Isso fere o quarto ou o quinto mandamento, sabia?


Ele -  Mas o banco era meu!


Padre -  Não interessa aos olhos de Deus, meu filho… roubo é roubo…


Ele -  Bem… como não consegui, murchei os pneus… mas voltando para casa lembrei que ele poderia enchê-los novamente em qualquer lugar… num posto de gasolina, por exemplo…


Padre -  A ira nos faz fazer bobagens… você deveria ter pensado em coisa melhor… quer dizer… ahn… você não deveria ter feito nada!


Ele -  Por isso, enquanto ia para casa… pensei em algumas coisas e fiz…


Padre -  Quais, meu filho?


Ele -  Primeiro descobri se a bicicleta ia sempre lá… olhei durante uma semana… e estava sempre lá…


Padre -  E então?


Ele -  E ninguém sabia de quem ela era… aí, estacionei outro dia com a minha ao lado dela, para ninguém perceber… assim fiz algumas coisas…


Padre -  Diga quais.


Ele -  Primeiro coloquei alguns camarões dentro do cano do guidão. Uma coisinha para o cara descobrir só depois de um tempo, digamos quando a coisa começar a feder… duvido que ele ache…


Padre -  Que mais?


Ele -  Coloquei graxa no assento… para sujar a bu… os glúteos da calça…


Padre -  Certo. Estou anotando… digo, estou vendo…


Ele -  Pus super-bonder no bico de encher os pneus… mais uma surpresinha para daqui a um tempo…


Padre -  Certo, certo.


Ele -  Acha certo?


Padre -  Não. Certo, certo é só para dizer que estou ouvindo… continue…


Ele -  E finalmente coloquei cadeados na coroa do pedal, na correia e na corrente que prendia a bicicleta ao poste… só pra dar trabalho…


Padre -  Entendo…


Ele -  Custou um pouco de dinheiro, mas senti prazer em fazer aquilo tudo…


Padre -  … isso é grave… você tem que se arrepender… e não sentir prazer em pecar…


Ele -  Mas agora estou arrependido, padre…


Padre -  Está mesmo?


Ele -  Sim…


Padre -  Nesse caso, sua penitência são três pais-nossos e três aves-marias. Absolvo você, em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo.


Ele -  Amém.


Padre -  Vá em paz.


(Dez minutos depois)


Padre (ao telefone) - Giancarlo? Avise ao bispo que a bicicleta dele não ficou possuída depois daquele incidente com os cadeados e com a graxa… não… descobri de onde vem aquele fedor todo… não… Giancarlo, não é um demônio… são apenas alguns camarões podres…

Você vai gostar...

  • Apocalipse Motorizado: blogs sobre transporte urbano eficiente
  • O meu texto de amanhã no NossaVia é sobre o excesso de carros nas ruas das grandes cidades. Sobre isso você também pode ler o livro Apocalipse Motorizado, de Ned Ludd. O
  • Notas sobre livros e outras coisas legais de 16.9.2008 a 18.9.2008
  • Infinita Diversidade em Infinitas Combinações - Hoje começou a votação para o primeira edição do Prêmio Fnac Novos Talentos dedicada à área de Quadrinhos. Os trabalhos dos 20 finalistas podem

    Tags: Livros e afins

    6 comentários até agora ↓

    • 1 Lívia Martins // 8 6 2005 às 12:17

      Ótema! Adorei!

    • 2 Alessandro Martins // 8 6 2005 às 13:13

      Hehehe… e eu ainda nem coloquei o cadeado. O bandido não perde por esperar, Lívia!

    • 3 40HotBlondie® // 10 6 2005 às 1:19

      Ale !! Rindo até agora… ha ha ha… essa foi ótima !!
      Querido… tbm quero agradecer por ter me linkado aki no Cracatoa… demais cara !
      Valeu !!
      Um beijo carinhoso pra vc… e bom final de semana !

    • 4 Alessandro Martins // 10 6 2005 às 9:03

      Você está sempre nos acompanhando… nada mais justo que a gente também a acompanhá-la! Beijos! Bom final de semana para você também!

    • 5 Nandinha // 12 6 2005 às 1:09

      Eu estava aguardando pela publicação desse texto..rsrsrs
      Agora sei de onde surgem as idéias para as crônicas!!!
      =D
      bjos.

    • 6 Alessandro Martins // 12 6 2005 às 7:04

      Sim… metade do que eu conto é mentira, a outra ficção… beijos!

    Deixe um comentário