No fundo, ele não deixara de ser uma criança. Acertos A história dos porquinhos Coquetel infalível Os cabritinhos O encontro O começo
Na infância, sempre pedia para sua mãe lhe contar a mesma história. Ela não aguentava mais. No lugar dos porquinhos, ela colocava carneirinhos, para variar. E depois cachorrinhos. E, no outro dia, bezerros. E, então, sabe lá que bichos.Mas a essência da história era a mesma. Sempre o mesmo enredo. E a mínima modificação era observada e corrigida. Com a exceção da mudança da espécie dos personagens. E, uma vez que isso se dava, ela precisava contar tudo de novo. Desde o começo.
Ele não era diferente da maioria. Todo mundo pensa que o que todos querem são experiências inéditas. Mas bastaria que cada um olhasse com sinceridade para o próprio umbigo para descobrir. O que as pessoas querem é repetir as bem-sucedidas. O romântico quer o calor do primeiro beijo. O drogado, o arrebatamento da dose iniciática.
Não. Sob esse aspecto ele não era diferente dos demais. Não se sentiria culpado por querer o que queria agora.
Por telefone:
Ele - Escute. Qual a cor de seu cabelo?
Ela - Castanho. Castanho claro por aí…
Ele - Na foto da sua página está ruivo.
Ela - A foto é do ano passado. Ainda não tive tempo de atualizar.
Ele - Sei…
Ela - … e então? Vai ser?
Ele - Escute. Antes de eu dizer qualquer coisa, ainda temos que fazer alguns acertos.
Ela - Sei…
Ele - Quero que você pinte o cabelo. Ruivo. Não. Vermelho.
Ela - Ah. Isso não.
Ele - Eu pago bem.
Ela - Quanto você chama de bem?
Ele - O dobro do que você gastar no cabeleireiro com um bom tratamento. Pago o tratamento, o corte e mais o dobro disso. E mais o preço dos seus serviços.
Ela - Aí começa a mudar de figura.
Os porquinhos então se esconderam o mais rápido que podiam. Um foi para trás do sofá. Outro para o alçapão no teto. Outro para baixo da cama. E o último entrou no guarda-roupa.
Com um ponta-pé a loba, a loba malvada, derrubou a porta. Com um chicote em uma mão, quatro coleiras na outra, bradava:
- Malditos! Vão apanhar muito.
Ela sabia que o sofá, o alçapão, a cama e o guarda-roupa ocultavam suas vítimas. Mas preferiu testá-los.
- Quem se entregar primeiro e disser onde estão os irmãozinhos vai apanhar menos.
Silêncio.
- Deixo lamber as minhas botas…
E, nisso, uma fresta na porta do guarda-roupa deixa entrever um par de olhos assustados.
- Ah… a delícia da corrupção - falou com deleite na voz…
Mas a história dos porquinhos de jeito nenhum era essa. Esse é o enredo errado. Precisa recomeçar a contar desde o início.
Ele sabia que as pessoas desejam em seus relacionamentos justamente aquelas coisas que de início as satisfaz e que, em si mesmas, contêm o fio que conduz à outra ponta da história, lá onde está o fim de cada encontro.
Assim, vai haver aquela que sempre reclama de que os homens mentem para ela. Aquele que invariavelmente acaba traído. O que cansa de suas namoradas, pois elas sempre falam demais ou exigem demais ou são ciumentas demais.
E, no final, não conseguem ver que o problema não está no mundo que, aparentemente, se apresenta como uma sucessão de fracassos. A questão está justamente na volúpia com que busca essa sucessão de fracassos, pois de início eles surgem com o sorriso do sucesso. A boa experiência de um início promissor é repetida com a esperança de que talvez seja nessa oportunidade que ele acabe bem. Mas não. Na verdade, as coisas funcionam com muita lógica no mundo. Uma coisa conduz à outra com precisão atômica. É um coquetel infalível.
Quem sabe fosse melhor começar com uma derrota mesmo. Quem sabe fosse bom mudar tudo desta vez.
Quem sabe quebrar tudo e começar do zero.
Procurou na internet. Teve que ter paciência. Também contou com a sorte. Era o rosto. Tirou o telefone do gancho e, sem hesitar, digitou o número da garota.
Quem sabe devesse fazer exatamente como os outros. Exatamente como ele mesmo sempre fez. Mas, desta vez, de propósito.
Mais acertos
Ele - Tem que ser vermelho.
Ela - Como naquele filme.
Ele - Que filme?
Ela - Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.
Ele - Não assisti.
Ela - Não importa. Na verdade, no filme o cabelo da garota é alaranjado. Depois azul. E muito mal pintado. Eu vou fazer o tratamento mais caro. Você vai se amarrar. Até gosto de cabelo colorido.
Ele - Ok… Tem mais…
Ela - O que é que tem?
Ele - Você tem que comprar um par de botas. É fundamental.
Ela - Isso eu já tenho… é digamos de praxe do meu… dos meus serviços…
Ele - Eu imaginava. É que tem que ser de um tipo bem específico. Um modelo certo.
Ela - Qual.
Ele - Você vai ter que importar. Pode deixar que eu pago também. Mas eu prefiro que você compre. Anota o endereço aí… www… é um site estrangeiro…
Ela - Deixe eu digitar aqui… só um pouco… carregando… uau… é linda mesmo… já estou encomendando.
Ele - Ok.
Ela - Vai demorar pra chegar.
Ele - Não tenho pressa. Não se preocupe. Me passe sua conta e eu faço o depósito amanhã mesmo.
Ela - Você deve ser muito rico… ninguém gasta tanta grana em um só programa…
Ele - Na verdade não sou não. Mas nunca fiz isso. Quero que seja exatamente como imagino.
A loba arromba a porta. Cada cabritinho escondido em um canto da casa.
- Adivinhe o que eu trouxe? - disse ela com deleite na voz.
Sim. É exatamente o que você está pensando. Não conte pra ninguém. Eu sei que é proibido. É proibido, mas você gosta. Você quer. Não core. Os outros podem perceber.
Mas o roteiro não é esse. Teremos que começar tudo de novo.
Finalmente, eles se encontram. Ela está com a cor do cabelo exatamente como ele imaginou. Usa as botas exatamente como o combinado. Não trocam palavras como foi acertado. Ela o amarra na parede e começa a chicotear. Até os braços começarem a cansar. Sabe fazer de maneira a não provocar marcas graves e ainda assim doer. Ele, claro, está mais estenuado que ela.
Ela o solta. Ele cai no chão, com o rosto próximo aos saltos das botas.
Ofegante, entre uma respiração e outra:
- Maria Antônia…
- … o que disse?
- Maria Antônia…
- Como sabe meu nome verdadeiro?! - disse ela sem saber como reagir.
- Maria Antônia, jardim B, Escolinha Trenzinho Feliz.
- Como você sabe tudo isso?!
- Certas pessoas não mudam muito… vi sua foto na internet… soube que era você… na hora… ainda tem aquela coisa de quando era criança… eu sonhava com você…
- …!
- … de qualquer jeito, só tive certeza quando vi você ao vivo… e ouvi sua voz…
E muito tempo depois - após a Escolinha Trenzinho Feliz e antes desse encontro - ele também havia conhecido uma outra garota, que nunca conhecera e nunca conheceria Maria Antônia. Ela usava esses cabelos vermelhos quase assim como Maria Antônia agora usava. Bem como essas botas. E o tratava desse jeito, como nunca antes havia desejado, mas que desde então passara a querer como se sempre assim o tivesse feito.
Uma garota entre a Escola Trenzinho Feliz e esse encontro. Um início promissor. Que levou a um final que, embora inevitável, imaginava, jamais viria.
- Maria Antônia…
- O quê?!
- Obrigado…
- Conta aquela história mãe…
- Qual?
- A dos cabritinhos…
- Não… essa eu já contei ontem… vou contar a dos cavalinhos…
- Tá.
- Então. Eram quatro cavalinhos.
- Mãe…
- O quê…?
- Dessa vez põe a Maria Antônia na história… eu adoro quando Maria Antônia entra nas histórias…
História para gente grande
28 5 2005 por Alessandro Martins
· 15 comentários
Tags: Crônicas e contos




15 comentários até agora ↓
1 Monnica // 30 5 2005 às 1:10
Ex-ce-len-te!! Amei Ale, vc está se superando cada vez mais!
Tenho licença para reproduzir parte desse texto no meu flog?
KissesX
2 Alessandro Martins // 30 5 2005 às 6:44
Claro que tem Monnica! Fique à vontade!!! Muito obrigado!
3 iva // 30 5 2005 às 10:16
Não sei o que dizer, só porque gosto muito disso, do cracatoa. Acho que mesmo com as minhas mudancas cracatoa será uma coisa que conrinuarei a ler.
4 Alessandro Martins // 30 5 2005 às 10:37
Folgo em saber, Iva! E que sejam mudanças para melhor!
5 Nandinha // 30 5 2005 às 10:47
Hmmm…Maria Antônia q era mulher de verdade….
rsrsrs
bjo!
6 Alessandro Martins // 30 5 2005 às 11:07
… não há como negar que existem muitas Marias Antônias por aí… rs.
7 Thompson // 30 5 2005 às 12:31
muito bom…
parabéns de novo….
abraços..
8 Alessandro Martins // 30 5 2005 às 12:34
Valeu, Thompsom… em breve teremos uma nova coluna por aqui… a Garota Cracatoa… tenho certeza de que você vai curtir…
9 Guilherme // 30 5 2005 às 20:07
hunf…maria antônia…eu não deveria ler esse texto hoje…mas tudo bem, o texto está ótimo, e também gostei do novo visual
10 Alessandro Martins // 31 5 2005 às 11:07
… o problema de um texto é que nunca lhe sabemos a cara até chegarmos ao final. As pessoas, se estão de cara feia ou com atitudes que não nos são favoráveis para aquele momento, as evitamos… enfim… de qualquer forma causou algum impacto… abraços, Guilherme…
11 Chrystian R. Silva // 3 6 2005 às 15:16
Simplesmente SOBERBO!!!
Magistral!!!
12 Alessandro Martins // 3 6 2005 às 17:40
Muito obrigado, Chrystian! Quisera que meu afamado omelete causasse tais reações! Valeu!
13 Angie Steiner // 4 6 2005 às 23:18
Texto simplesmente espetacular!
Diferente de tudo que já li, e conseguiu prender a minha atenção de uma forma que… os outros não prenderam!!! adorei muito!
Ganhou um link no meu flog… hehe
Parabéns, e abraços
14 Alessandro Martins // 4 6 2005 às 23:49
Oi, Angie, não vi o link no seu flog… manda seu endereço para mim para eu te fazer uma visita, ok? Em breve teremos uma página de links também e com certeza você estará lá… beijos!
15 Angie // 4 6 2005 às 23:58
Alessandro, meu flog é http://www.madameangie.myflog.com.br, e quando estrar lá, verá que é o último link ( por estar em ordem alfabética). Espero sua visita lá!
Abraços
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