Insetos e outros sentimentos

5 4 2005 por Alessandro Martins · 4 comentários

Senti como se fosse uma agulha a entrar na ponta do dedo grande do pé. Impossível ignorar a dor, suportável mas penetrante. Olhei e, bem ali, um pouco abaixo do unha, agarrado à pele o que parecia ser um pequeno inseto. Eu já tinha sido picado por formigas minúsculas que provocavam dor semelhante, mas não conseguir identificar o que era aquilo. Simplesmente, com os dedos em pinça, puxei e deixei aquilo cair ao chão. No lugar, um pequeno ponto vermelho de sangue, um ferimento minúsculo.

Volto a conversar. Mas é como se o inseto ainda estivesse ali, a doer. Olho, desta vez, não para o dedo do pé, mas para o chão para mais uma vez tentar identificá-lo. Encontro não aquilo que me feriu. Mas uma abelha a se arrastar. Na verdade, aquilo que arranquei da pele acreditando ser um bicho era o ferrão e alguns órgãos internos do animal.

Talvez se, de início, eu tivesse percebido tratar-se de uma abelha a ferroada fosse mais dolorida, pois eu nunca fora picado e a imaginação cuida sempre para que aquilo que não conhecemos seja mais terrível do que é na realidade. E, de fato, a picada não é tão dolorida assim como contam. De quebra, descobri que não sou alérgico.

Biologia aplicada
O ferrão, presente apenas nas operárias, é o instrumento de defesa das abelhas. Possui uma extremidade afiada, usada na perfuração, e duas farpas que o prendem na superfície ferroada. Está ligado a uma pequena bolsa de veneno, a apitoxina.

Antes de mais nada, com a apitoxina são fabricadas alguns medicamentos que amenizam as dores da artrite, reumatismo e nevralgias.

Na abelha, músculos especiais permitem que o veneno seja injetado mesmo depois da saída da abelha. Quando a abelha tenta voar ou sair do local após a ferroada, ocorre uma ruptura de seu abdome e seguida de morte. Dizem que a sensação deve ser semelhante à de se alguém tivesse seus órgãos internos arrancados através do umbigo.

Duas coisas, portanto.

Um. O ferrão é um órgão de defesa da colméia, do grupo, não da abelha. Fácil chegar a essa conclusão depois de descobrir que o indivíduo morre após o uso da arma. Além do mais, a picada libera um feromônio que estimula outras abelhas a picar também, em uma reação em massa.

Dois. Às vezes é melhor sofrer uma ferroada que ferroar. Ferroar mata. Ser ferroado não.

Agressão
Eu queria dar um soco para que você entendesse. Como se em meu punho fechado estivesse o conhecimento. Como se os dedos contraídos pudessem enfiar em seu estômago um pouco de mim. E o meu sentimento pudesse ir para além da pele, da carne e das vísceras com um impacto seco. O seu corpo, dobrado em si, pela dor e pela ausência de reação, fosse, assim, um gesto de compreensão.

Você não viu, mas você pisou em mim. Você não viu, mas você me apertou entre os artelhos. Você não percebeu, mas você depositou o peso de um olhar sobre mim e me esmagou. Por isso, eu queria dar um soco. Porque você não viu. Acima de tudo, porque você não viu.

Talvez o soco faça você ver. É a forma que tenho de aproximar. Mas ela afasta, porém. E me mata.

Um soco. E talvez você não entenda.

Muito provavelmente não.

A natureza é sábia
Na rainha, as farpas que prendem o ferrão ao corpo da vítima são menos desenvolvidas que nas operárias e a musculatura ligada ao ferrão é bem forte para que a rainha não o perca após utilizá-lo.

Até na natureza é melhor ser nobre que operário.

A rainha
Certa vez, fui ferroado por uma abelha rainha. Esperei que morresse depois daquilo, mas não. O ferrão continuava ali. Suas tripas também, bem protegidas sob a película do abdome. Não morreu, de fato.

E, mais uma vez, fui testar seus caprichos. E, mais uma vez, fui ferroado. A segunda ferroada doeu mais que a primeira.

E a terceira, mais que a segunda. E ela não morreu.

Demorou para eu descobrir que sua natureza era ferir. Ferir e parir outros como eu que, uma vez feridos, tentavam ferir. E, eles sim, morriam - muitas vezes - em cada tentativa.

Ainda bem que não sou alérgico.

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    Tags: Livros e afins

    4 comentários até agora ↓

    • 1 Ricardo // 6 4 2005 às 0:41

      de uma forma inexplicavel acabei de ser ferrado. o pior, sou alérgico. mas pelo menos não sou eu quem vou morrer. ótimo texto.

    • 2 Alessandro Martins // 6 4 2005 às 9:16

      Então, já que gostou, nem vou recomendar um anti-histamínico, Ricardo.
      Até breve!

    • 3 Um Apicultor // 23 4 2007 às 16:58

      Eu sei que o objectivo não é explicar detalhadamente a fisionomia de uma abelha rainha, mas aproveito para corrigir um erro. As abelhas rainha, não possuem ferrão… À nascença o que numa abelha trabalhadora daria o ferrão, na rainha dará o seu sistema reprodutor…

      Espero ter sido claro.

      Com os sinceros comprimentos,
      Um Apicultor

    • 4 Alessandro Martins // 23 4 2007 às 17:08

      Muito agradecido por seus gentis esclarecimentos, meu caro apicultor. Isso só me faz pensar que o que em uns é feito para agredir em outros existe para criar ou, que seja, reproduzir.

      Grandes abraços!
      Seja sempre bem-vindo por aqui.

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