Cada vez que alguém ligado à cultura diz ter escolhido Curitiba para estrear porque essa trata-se de uma cidade teste, tenho a impressão de que quem está a testar algo é ele, que, então, põe à prova minha paciência.
Existe uma crença, abençoada pelo senso comum, de que um espetáculo que agrade a platéias mais exigentes, certamente cairá também nas graças das menos aquilatadas. Coisa que, obviamente, não é verdade.
Afinal, sem querer fazer julgamento de valor, não há como imaginar que pessoas que admiram Sandy e Júnior venham a gostar de Ná Ozzetti ou vice-versa. Na verdade, uma coisa nada tem a ver com a outra. É óbvio que, se uma peça ou show funciona com um público muito crítico, não funcionará com um menos crítico, mais afeito a um Bonde do Tigrão, a um Sai de Baixo e congêneres que a uma orquestra ou a uma companhia shakespeariana.
Muito mais prudente usar uma cidade de gosto médio para testar um produto, seja ele uma adaptação de Alexandre Dumas para bonitinhos globais, seja maionese, seja um novo detergente líquido. Dá na mesma. Alguns adoram, outros detestam, mas todos ovacionam em igualdade.
E, nesse caso sim, Curitiba é a cidade perfeita. Prova disso é que a maior parte, se não a totalidade, das louras socialites curitibanas que freqüentam teatro uma vez por ano - em sistema de revezamento – só conseguirão notar a diferença entre a orquestra e o Bonde do Tigrão somente pelo fato de que os primeiros usam casaca.
Nesse caso, a cidade seria uma espécie de exame de mediocridade, mas esse título não seria nada abonador. Portanto não vamos dizer tal barbaridade da auto-proclamada capital cultural. Ou então digamos, mas não sem admitir a possibilidade de xiliquinhos, ahs! e ohs! Das tais louras socialites.
É possível ir além, no entanto. Curitiba pode sim ser encarada como uma espécie de sparring cultural, perfeita para dar confiança a um elenco ainda inseguro, da mesma forma com que o campeão de boxe esmurra com desenvoltura seu auxiliar menos dotado até ficar com os braços exaustos e a cara do outro com a aparência de uma picanha mal passada.
Os treinos de cavalos de corrida incluem, por exemplo, parelhas com animais menos velozes a fim de que o potro se acostume a estar na frente e, aos poucos, passe a acreditar mais nas próprias patas.
De fato, o público da capital das araucárias ajuda em muito para que artistas menos qualificados ganhem mais fé, não nas patas, que eles ainda não chegaram a tanto, mas em sua pífia interpretação. Ainda que seja uma atuação capenga, calcada em um texto bisonho, com uma direção aleijada.
Pois a parte de que o curitibano mais gosta nos espetáculos é o final, quando pode, finalmente, depois de muita ansiedade, aplaudir em pé. A salva entusiasmada em posição de sentido é uma espécie de instituição local.
Para o curitibano médio, aplaudir em pé é uma espécie de selo de qualidade que só por ele pode ser auferido. Tal carimbo é, no entanto, distribuído fartamente e coloca a Filarmônica de Berlim e a Sinfônica de Tribobó do Oeste em pé de igualdade.
As platéias curitibanas aplaudem tudo em pé. Creio que, se não fosse no início da noite, aplaudiriam em pé até mesmo a afinação dos instrumentos antes dos concertos.
Há algum tempo, eu imaginava que isso se devia à pressa de ir embora. Aplaudir em pé seria então uma maneira de unir o inútil ao desagradável, ao juntar o ato de deixar a cadeira e a atitude de dispensar os serviços dos atores ou músicos.
Abandonei essa tese depois que observei que algumas ovações duravam mais do que dez segundos para apresentações que mereceriam bem menos. Passei a acreditar nas hipóteses médicas que levariam a crer em alguma dificuldade em permanecer sentado ocasionada pela água distribuída por aqui, pela comida ou alguma coisa assim. Porém o bom senso, fez com que eu abandonasse também essas hipóteses. Hemorróidas nunca foram hepidêmicas, endêmicas ou mesmo pandêmicas.
Outra possibilidade é o costume, dado que nos horários de maior pico os ônibus da cidade ficam entupidos, com longas filas e, lugar, só em pé. Mas essa também foi deixada de lado. Primeiro porque a maior parte dos freqüentadores dos espetáculos - esses que buscam a avaliação da capital ecológica - não costumam andar de ônibus, pelo menos nesses horários mais drásticos. Segundo porque ninguém em sã consciência é capaz de aplaudir uma tarifa de R$ 1,90. Nem mesmo as platéias curitibanas. Ninguém também é tão bobo para aplaudir uma tarifa de R$ 1 somente aos domingos.
O público médio daqui também não pode dizer nada das poltronas do Teatro Guaíra, muito macias, verdadeiro convite para nádegas fatigadas.
Eliminada a última chance, só se pode admitir que a causa é genética. O curitibano é um hospitaleiro congênito que recebe bem até mesmo aqueles que lhe agridem com maus espetáculos, péssimas montagens, shows indecentes. Nada mais cristão: se lhe derem um tapa, ofereça então um aplauso.
Sobre essa história toda de “cidade teste”, porém, alguém mais sábio já disse que o curitibano não é crítico, mas crica.
Porém, aplaudindo tão entusiasticamente a qualquer peça de quermesse, conclui-se facilmente que ele não chega a tanto.



16 comentários até agora ↓
1 Thi // 31 1 2005 às 23:23
“Eu amo a minha cidade”
hahahah
2 Alessandro Martins // 1 2 2005 às 7:32
… sim. “Se você não está feliz, devia se mudar!”
3 Lívia // 1 2 2005 às 12:34
Nossa, me acabei de rir. Adorei. Sabe que esses dias eu tava pensando em algo sobre Curitiba… Claro que pelo fato de ter estado por aí dia desses e de estar voltando na sexta… Mas depois eu escrevo lá no journal :O)
4 Alessandro Martins // 1 2 2005 às 12:47
… bacana que você percebeu o bom humor que há por traz do mau humor do texto, Lívia! Beijos! Espero que tenha se divertido muito por aqui!!!
5 Bruno // 3 2 2005 às 0:22
Realmente, é hipocrita todas as pessoas ovacionarem um espetaculo, a não ser que seja soberbo.
Da mesma maneira que eu não sou obrigado a pagar os 10% a não ser que o serviço de atendimento tenha sido perfeito. Coisa que quase nunca é, mas tenta não pagar pra você ver o quenstionário, ja frente do funcionário e do gerente…
Se eu não gosto do show, só bato palma por respeito ao esforço… mas nada de ovacionar.
E não pago 10%, compro habibs no balcão.
6 Alessandro Martins // 3 2 2005 às 8:48
Caro Bruno,
… o que me alivia é saber que esse tipo de hipocrisia não é um privilégio de Curitiba. Na verdade o negócio é mais semelhante ao comportamento da boiada. Tal quando um boi sai apavorado os outros vão atrás desabalados, as pessoas aplaudem entusiasmadas assim que o primeiro sujeito o faz… ainda que ele esteja, digamos, enganado… confesso que eu já puxei, a título de teste, na Ópera de Arame, um aplauso em cena aberta, num momento em que não caberiam palmas. Fui acompanhado entusiasticamente… isso foi em uma das aberturas do Festival de Teatro de Curitiba. Se eu não me engano foi uma montagem de última hora do Rodrigo Matheus. Ele é bom. Mas aquilo que ele fez era ridículo… acho que a melhor coisa do espetáculo foi aquele aplauso fora de hora.
Quanto aos 10%…
7 Andréa // 3 2 2005 às 10:33
Alessandro,
Aplaudir de pé qualquer espetáculo é uma epidemia. Não sei se começou em Curitiba, mas já chegou ao Rio. Não tem jeito. Todo mundo levanta e só eu e os meus ficamos lá sentados. Antipático, sem dúvida, mas não nos animamos a seguir o “estouro da boiada”.
Abraço,
Andréa, que lê sempre e adora, mas nunca comenta
8 Alessandro Martins // 3 2 2005 às 10:46
Oi, Andrea…
o Paulo Polzonoff Jr., que agora está no Rio, é quem me contou que isso não é privilégio da Capital das Araucárias.
Então, o que deveremos fazer, você, os seus e eu quando o espetáculo for realmente bom? Dar pulinhos?
Bom saber que você está sempre por aqui!
Abraços,
Alessandro Martins.
9 Otto Nascarella // 3 2 2005 às 14:31
Alessandro meu querido!
VOCÊ SÓ ME DÁ ORGULHO…
neste texto você se superou, falou tudo que tinha que ser dito e ponto final…palavra de Dom Nascarella.
Um forte abraço
10 Alessandro Martins // 3 2 2005 às 14:37
Otto…
… espero que isso conte pontos na hora de acertar minhas dívidas com a “famiglia”….
Abraços.
11 tami, a carioca // 3 2 2005 às 16:49
qualquer movimento contra a “culturisse de shopping” de curitiba deveria ser nacional!
12 Alessandro Martins // 3 2 2005 às 18:44
Tami,
… vou escrever algo sobre a mania que os curitibanos têm de ir ao shopping como se fosse a coisa mais bacana do mundo…. se um dia os shoppings forem proibidos, certamente os curitibanos entraráo na ilegalidade…
Beijos!
13 tami // 7 2 2005 às 3:03
shoppings subteraneos e escuros…mercado negro…pessoaS apanhando…uhauhauahuahua
14 Alessandro Martins // 7 2 2005 às 10:05
… certo! Com coisas estranhas sendo vendidas, como boneca de porcelana com a cara quebrada!!!!
15 Fernanda Albanaz // 7 2 2005 às 19:58
Concordo plenamente, Alessandro…
O q, aliás, a própria “classe” já se deu conta, salvo algumas raras exceções.
;)
16 Alessandro Martins // 7 2 2005 às 22:16
Fernanda,
… ainda bem que as pessoas já estão mais conscientes disso… rs… não sou uma voz que prega no deserto…
Beijos!
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