O Sr. A.

25 1 2005 por Alessandro Martins
· 3 comentários

O Sr. A. andava tão estranho ultimamente que um piano caiu-lhe sobre a cabeça e ele nem sentiu. E, depois de ter caído o piano, e ele nada ter sentido, ele, o Sr. A., ficou a se perguntar se era isso mesmo o que ele deveria sentir: nada. E ainda restou-lhe a dúvida: sentira nada, de fato? E, então, assim assaltado, ficava a procurar sinais em seu corpo que indicassem que havia sentido alguma coisa.

O Sr. A. talvez estivesse por demais preocupado com sua sensibilidade para sentir alguma coisa.

Sonhei
Sonhei com uma palavra antiga e intraduzível que em seu sentido significaria algo como “aquela que adoça minha pele”. Mas de acordo com a forma e intensidade com que fosse pronunciada poderia significar “aquela que amarga os meus dias”, “a que me faz adormecer suavemente”, “a que me tira o sono”, “a que faz chover”, “a que carrega o sol sobre os ombros”, “aquela com flores sobre a tez” ou simplesmente “mesa onde serve-se as refeições”. Esta última apenas nas traduções mais populares.

Mas sonhei com essa palavra.

E, quando acordei, ainda a pronunciava para a platéia vazia de meu quarto, onde não há sequer espelhos. E por diversas vezes eu e minha amante lamentamos que não houvesse espelhos para que a um só tempo satisfizéssemos nossas necessidades de pecar triplamente fosse pela lassidão, pela luxúria e, também, pela vaidade. Nada como se ver e se vangloriar, simultaneamente, por cometer tão doces faltas…

Só há uma grande janela em meu quarto. E voltado para ela, para as montanhas que através da vidraça vejo, pronunciei a tal palavra, com a estranheza dos que tem uma guloseima nas mãos, por certa, e, quando acordam, envolvem o ar com os dedos, que, então, agarram o vazio.

No segundo seguinte, lúcido, procurei pronunciar a palavra novamente. Mas não sabia mais como fazê-lo.

Fiquei a murmurar coisas que pudessem parecer com aquilo, sem conseguir. Movia os lábios, como se buscasse o formato dos sons.

Finalmente, desisti.

Certas palavras, são ditas uma única vez na vida. Depois disso, a boca perde a inocência. Emudece para elas.

O Sr. A. e as teclas
O Sr. A. não pôde deixar de notar que em seus bolsos, por ocasião do terrível acidente musical, ficaram cinco teclas.

Assim como não era possível, ainda que de posse do marfim, saber da boca de que elefante saiu aquilo, não havia como saber a que notas originalmente elas correspondiam. A elas, ainda assim, decidiu batizar com as cinco notas iniciais da escala maior: dó, ré, mi, fa, sol. Antes de, já batizadas, pensar no que fazer com aquelas teclas, em sua busca por seus sentimentos ou não-sentimentos, meditou sobre o significado de um teclado: talentosos pianistas se apresentaram nos maiores teatros do mundo sem sequer atinar que passeavam seus dedos carinhosamente sobre o mais triste sorriso paquidérmico.

Táticas
Agora inventaram uma história de arquibancada. Homens e mulheres, digo, meninos e meninas têm nos lugares que costumam freqüentar algo que chamam assim, de arquibancada. E a arquibancada é composta pelos garotos ou garotas com quem tenham ficado - isto é, tido alguns beijos, amassos ou trepadas, ou por garotos ou garotas com quem pretendam ter isso. É importante, no entanto, que essas coisas - beijos, amassos e trepadas - não aconteçam na frente da assim chamada arquibancada, sob o risco de que toda ela caia ou que a estrutura da coisa fique abalada.

Veja. Não é uma questão de que eventualmente alguém possa se machucar ao cair da arquibancada. A questão é: a arquibancada tem que permanecer em pé. Na verdade, a coisa parece mais um castelo de cartas. Feito com aquele baralho Copag, que se compra em botecos para jogar truco.

O Sr. A. , o dó, o ré e o mi
Não encontrando sequer um arranhãozinho em sua pele, sequer um rasgado em sua roupa, o Sr. A. concluiu que estava imune a acidentes, pelo menos àqueles que estivessem ligados a pesados objetos musicais que caíssem do alto sobre sua cabeça. Por uma intrincada rede de raciocínios e exercícios mentais, concluiu que também estava salvaguardado também de fatalidades emocionais.

Mas, ora! É importante sentir.

De outra forma, como saberia se estava se queimando e prejudicando seu corpo se não percebesse, no arco reflexo da dor, que o fogo tostava sua pele e sua carne? Ou se percebesse isso quando já fosse tarde demais?

Então decidiu dar funções aquelas teclas que, no momento, guardava no bolso.

Para o dó, reservou as mágoas passadas, pois através delas evitaria as futuras. Imediatamente, observou que o branco do marfim até a pouco imaculado apresentava pequenas, finíssimas, rachaduras, preenchidas pelo verniz sujo e escuro do tempo.

Para o ré, deixou as frustrações cotidianas, aquelas que não chegam a ser mágoas, mas apenas porque tenta-se alcançá-las, porém, sem sucesso. E a tecla amarelou. Com ela, talvez o Sr.A. conseguisse evitar as armadilhas das falsas ambições, dos flertes infrutíferos e das palavras encantadoras, porém traiçoeiras.

O mi ficou com o tempo perdido e com a negligência para consigo mesmo. E o Sr.A. lembrou do tempo que perdera e perdia em frente ao televisor ou a rolar na cama sem nada fazer quando poderia ter feito um mundo e salvado tantos outros. Olhou para a tecla e ela estava torta, como se, de uma hora para outra, tivesse perdido o prumo, o nível, como se fosse um dente torto na dentadura tristonha do piano: um obstáculo em que os leves dedos do músico tropeçassem.

A menina
A menina é bela e diferente de outras donas de fotologs se arrisca a escrever longos textos. Antes mesmo que eu possa comentar alguma coisa e me sentir meio ridículo por fazer isso, pois nem ao menos a conheço, o limite de cem comentários de seus posts já se esgotaram. Imagino se isso acontece porque seus textos são interessantes ou porque as fotos são bem feitas ou, simplesmente, porque ela é bela.

E, ainda sem conseguir deixar o comentário, percebo que a minha necessidade reside sim nessa necessidade de me sentir meio ridículo. Todo mundo é meio ridículo um dia ou outro. Tenho direito de ser também, ainda que, para isso, eu use como instrumento uma bela garota, um texto razoavelmente bem escrito e uma fotografia de certa qualidade.

O Sr. A., o fá e o sol
Porém nem só de maus agouros era feita a escala do Sr. A.

Para a tecla fá ele reservou os bons acontecimentos e as boas lembranças. Sim, sua vida estava cheia delas. Ele era um colecionador de momentos. Preparava-os com o carinho do chef de cozinha e os saboreava segundo a segundo. Pois sabia que, por mais planejados e elaborados que fossem, eles não se repetiam: dependiam muito mais do acaso que de seus cuidados. E a tecla não mudou. Pois as lembranças são assim. O Sr. A. costumava, inclusive, pintá-las com cores mais vivas do que realmente tiveram.

Para a tecla sol. não reservou nada. Nunca se sabe o que o futuro guarda e, talvez, nela esse misterioso algo guardado soasse bem.

Olhou então para os cinco pedaços de marfim em suas mãos. Percebeu que o que dava significado a todos eles era o tempo. Música tem a ver com tempo. A vida matematicamente dividida, em antes, agora e depois, era compreensível. Ele sabia, no entanto, que um piano não tem apenas cinco teclas. Tem sim tantas quantas queiramos lhe dar.

Ritmos
Sempre falamos em ritmos biológicos, pois a raiz bio está ligada à vida. Compreendemos a existência como algo ligado à vida, que é a parte do ciclo que, no momento, entendemos. Será que um dia falaremos em ritmo tanatológico? Tanatos, a morte, evidentemente também faz parte de tudo isso. Não é boa nem ruim, mas apenas uma realidade. E os ponteiros afiados de seu relógio cortam como também cortam os da vida, nem mais nem menos. As coisas começam. As coisas acabam. Para que, então, possam começar de volta.

Um dia de chuva
Um sia o Sr. A. olhou pela janela e choviam pianos. Acordou com a sinfonia de loucos acordes. Colocou seu casaco. Sentiu que as teclas estavam no bolso. Apertou-as entre os dedos. Abriu a porta. E saiu em meio à tempestade, como se fosse um sonâmbulo.

Nunca estivera tão acordado.

Não, não deixara de sentir as pancadas. Apenas se tornara mais musical.

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    Tags: Crônicas e contos

    3 comentários até agora ↓

    • 1 karlinha // 25 1 2005 às 10:39

      hehe, arquibancada lotaaaaaaaaaaaaaaaaaada…ou nem tanto..hehe
      bjs Ale, te amo

    • 2 Patricia Martins // 25 1 2005 às 14:49

      Certas dores valem a pena, seja pela dor em si, por um resultado, pelo prazer, pelas arquibancadas da vida, pelas lágrimas, pela chuva, pela música….

    • 3 Alessandro Martins // 25 1 2005 às 14:56

      Como eu sempre digo, Patrícia, não vai ser uma simples dorzinha que vai me impedir de conquistar o mundo… beijos!

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