Sou inflamável, meu amor

29 12 2004 por Alessandro Martins · 5 comentários

Os olhos arregalados na escuridão assim estão porque, de dentro pra fora e no ritmo ondulante do mar, um bicho comeu meu sono. Eles vêm, grandes como dois pires, de outros tempos, de tempos em que eu não julgava ser possível flagrar-me amado.

Amado, mordido e beliscado entrei em combustão e iluminei o quarto. Ou então poderei dizer que as sombras que vi na parede vieram dos dentes que me mordem, das mãos que me beliscam e do coração que me consome.

Roubei o fogo dos deuses e apresentei-o aos homens. Eles não entenderam, mas não me importo. Ainda que eu cuidasse de incendiar o mundo e passasse os dias a contagiar as choupanas das vilas e os arranha-céus das metrópoles com as chamas das quais sou portador, o fogo parece ter uma gramática muito própria e imcompreensível. Tem a sintaxe volúvel do plasma. E o que vejo nas ruas não é plasma, mas pedra. E dentro da pedra, mais uma pedra. Pedras pulsam e pegam ônibus e dirigem carros e compram coisas no cartão de crédito. E essa gramática tão mutável não se apega à superfície mineral, pois os minérios aquecem, até ao limite, mas não incendeiam, não derretem, não explodem, não reagem. Estou cansado de semi-pedras, onde há madeira, papel, álcool no mundo? Se eu gritar que vi uma luz, talvez me apedrejem.

Acordei então sobressaltado, por isso os olhos arregalados na escuridão. Eu que tantas vezes desisti e de quem, em outras épocas, também desistiram, desta vez, botei fogo em Roma, como se o mármore pudesse assim virar pó.

Corro de mãos dadas, a fugir da tragédia. Amo muitas mulheres. Uma amo com os olhos, outra com a pele, outra com as veias, outra com o coração, outra com a cabeça. Apenas uma, porém, amo com o deus e o diabo que há em mim. E eles são um só e são os olhos, a pele, as veias, o coração e a cabeça. Nossa cama, a minha e a dela, é de nuvens e labaredas.

Ela, essa mulher, lambe-me o corpo como quem saboreia, queima-me com a língua e, de repente, começo a falar em outros idiomas e professo a minha fé em paragens distantes. E, na sexta-feira, fico em silêncio: Paixão e Morte de Joana D’Arc.

Meu chuveiro tem chuva ácida, que corrói imperfeições. Não as destrói, mas evidencia. Tudo serve de combustível na sanha destas chamas, até elas. Banho-me e depois recosto a cabeça nessas pernas. E, finalmente, adormeço. Os olhos, sob as pálbebras, são duas pequenas brasas muito quentes.

Meu mundo, agora, flameja. Como um sol.

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    Tags: Livros e afins

    5 comentários até agora ↓

    • 1 karlinha // 29 12 2004 às 13:56

      meu amado Ale..vc arrebentou…e continue ardendo,muito, muito e muito..bj

    • 2 cahê // 29 12 2004 às 17:33

      A idéia é que nada fique incolume a nossa chama. Digo nossa por que, o que tua chama toca, incenDea!

    • 3 Patricia Martins // 29 12 2004 às 17:52

      Já vi que terei de virar fã deste lugar… No mundo de plástico do universo sintético, às vezes, encontramos pérolas!!! Lindas palavras, porém, peculiares, para entendê-las é preciso ter fogo!

    • 4 Rico // 29 12 2004 às 23:36

      Apenas esclarecendo, já que o assunto está em alta:

      27 de agosto de 1883: a erupção do vulcão Krakatau (ou Krakatoa) gera uma onda gigantesca que varre os litorais de Java e Sumatra, matando 36.000 pessoas.

    • 5 Carol bueno // 29 12 2004 às 23:39

      Ouch!!! ta egando fogo hein! ahahaha, todos nos estamso meu caro, todos nos!!!!!

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