Um pequeno, pequeno mesmo, conto de Natal

24 12 2004 por Alessandro Martins · 20 comentários

O menino tinha um único LP. Um disco de vinil que, aos quatro anos, ganhou da tia. Um vermelho, da coleção Disquinho, daqueles que traziam histórias com músicas de Braguinha, arranjadas por Radamés Gnatalli. Esse, o dele, era a Formiguinha e a Neve. Andava com a coisa colorida para lá e para cá.

Acontece que seus pais não tinham radiola, toca-discos, eletrola ou qualquer coisa em que pudesse ouvir aquilo. Não sei se isso era pobreza ou se, na época, essas tecnologias eram, de fato, caras. Então, a história da Formiguinha e o Sol era um mistério, daqueles feitos de silêncio, embora cheio de cor, pois a capa do disco também era bastante ilustrada.

Um dia, a professora do menino disse que os alunos poderiam levar ao colégio os discos que quisessem mostrar a seus amigos pois, na radiola, ela tocaria alguns para todos ouvirem.

O menino voltou feliz para casa porque era a chance de, finalmente, conhecer a história e, ainda, mostrar seu presente para todos. Com alguma relutância dos pais – pois era um LP, algo caro e raro -, levou-o no dia seguinte para a escola.

Na última hora do dia, a professora começou o ritual quase mágico de colocar aquelas coisas redondas de plástico para rodar. E pôs o disco de um, de outro e todos ouviam atentos. Eram coisas importantes. Mas, por mais que ele balançasse os pequenos e brancos braços que, ora na esquerda, ora na mão direita, seguravam A Formiguinha e a Neve, em nenhuma das vezes foi o escolhido.

Voltou para casa, mais uma vez sem saber a história. Não ficou triste, triste mesmo. Na verdade, a tristeza com que retornou é daquelas que só depois de adulto a gente lembra e fica com aquele sentir de que poderia ter feito algo por aquele menino tão bem intencionado. Quase uma melancolia de pedir desculpas por algo que não mais volta e tampouco tem razão para pedidos de desculpas.

O presente de Natal que eu quero hoje, dar e receber, por isso, é poder contar para esse menino de quatro ou cinco anos que a história é sobre uma formiguinha surpreendida pela neve e que, por isso, tem seus pés congelados, presos durante a nevasca. Ela pode morrer de frio se não for ajudada. Pede auxílio para animais, para o vento e até para um muro. Ninguém pode fazer nada por ela. Por último, com sua voz fininha e melancólica, pede ajuda ao sol que, finalmente a salva. Sim, temos um final feliz para o pequeno inseto.

Talvez eu não tenha a voz tão bonita e treinada como a dos atores que participam daquilo e meu jeito de narrar não seja cheio de efeitos sonoros, talvez não haja orquestra por detrás, mas não quero deixar de falar para esse menino - eu 25 anos atrás – que o disco tem músicas lindas, que tocam o coração da gente como um raio de sol. E os pés têm finalmente vontade de sair a correr por uma grama verdinha para a gente dar cambalhotas até chegar à parte mais baixa da colina onde nos espera a primeira namorada de quem, sapeca, se rouba o primeiro beijo.

E são melodias tão belas como essa que agora escuto.

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    Tags: Livros e afins

    20 comentários até agora ↓

    • 1 cahê // 25 12 2004 às 4:01

      Alê, você é bom cara!
      feliz natal.

      “Lembrando da equação de frascos e perfumes, penso que, talvez, pequenos corpos contenham grandes escritores.”

    • 2 Kak's // 25 12 2004 às 13:05

      Tocou meu coração!!!

    • 3 Samurai // 25 12 2004 às 13:17

      e os limões?!

      “ó sol, tú que és tão forte, que derrete a neve
      desprende o meu pézinho…”

    • 4 Lu Kundalini // 25 12 2004 às 14:46

      Tenho certeza; você É uma criança feliz!
      Beijos, lindo amigo!

    • 5 Roberta Febran // 25 12 2004 às 21:54

      Eu já disse que seus textos me fascinam? Já, né? Eu já disse que te desejo tudo de maravilhoso? Já, né? Então tá. Aquele beijo, Ale. E que essa criança nunca morra em você.

    • 6 Nanda // 25 12 2004 às 23:17

      Alê, vc é uma pessoa incrível, especial por manter essa criança linda dentro de vc!
      Um ótimo fim de ano e um ano novo melhor ainda, com tudo de bom q vc merece.
      Beijos da Nanda.

    • 7 Bibs // 26 12 2004 às 19:09

      Lindo mesmo. Como tudo que leio aqui.

      Feliz Natal! Mesmo que um pouco atrasado. hehe

      Beijos

    • 8 Lorrene Carolline // 27 12 2004 às 13:50

      Bela mensagem.

      E por coincidência eu ouvi alguns LP nesse Natal, discos comprados em sebo um ano antes e só hoje consegui ouvir, e eu e meu irmão tentando mecher no aparelho de som emprestado que minha mãe conseguiu pois apesar de meu pai ter comprado vitrola, não deixava as crianças mecherem, agora que ele não está mais, podemos ver finalmente a agulha passando no disco e de lá saindo música.

    • 9 Priscilla // 27 12 2004 às 15:52

      Eu ouvi essa história da formiguinhas incontáveis vezes. E incontáveis vezes chorei, no Jardim III. :S

    • 10 Rico // 28 12 2004 às 4:38

      Numa busca incessante por cultura e crônica paranaense, achei este site.
      Muito bom. gostei do que vi… parabéns a vcs

    • 11 Patricia Martins // 28 12 2004 às 16:09

      Nossa… que coisa mais linda… adorei, um pedaço meio triste e outro mais alegre, uma mistura que tras gosto de esperança, um gosto que precisamos sentir para alimentar a nossa capacidade de acreditar e ser capaz de seguir feliz nessa visa que não anda fácil!

    • 12 Claudio // 11 12 2005 às 12:09

      Se alguém tiver esse disco… tenho interesse em gravar essa histórinha da formiguinha… ou até comprar o disco… pois quero que meu filho escute e o disco que eu tinha se perdeu num incêndio…

      Abs

    • 13 Silvia S. // 18 1 2007 às 16:40

      Alessandro, vou parar minhas leituras retroativas por hoje, porque agora você me fez chorar. ;-) Primeiro a fábula do envelope já deixou os sentimentos à flor da pele, agora esta…

      Faz a gente pensar nos pequenos gestos que tocam a vida de uma criança, e não posso deixar de pensar nas minhas filhas. :-)

      Resposta: Recomendo que você veja o filme Mais Estranho Que a Ficção… depois que você disse isso lembrei dele (está nos cinemas). No começo vai demorar para entender por que - isso sobre as pequenas coisas -, mas no final fica claro…

    • 14 Samantha Shiraishi // 3 8 2007 às 18:41

      Ale, este conto de Natal -lindo, lindo- me lembrou um disquinho que eu tinha na mesma idade (da Branca de Neve, acho) que ficou no sol e entortou. Coisas de vinil e uma melancolia que a gente não esquece. E que não voltam.
      (Fiz há poucos meses um desabafo de mãe sobre as músicas da nossa infância e falei dos disquinhos do Radamés Gnattali. hehehe)

    • 15 Anny // 1 12 2007 às 18:03

      Alessandro:
      Suas historinhas me fazem lembrar das minhas também. Sua descrição perfeita da situação, também me fazem lembrar de meus filhos. É por estas e outras que adoro ler oque vc escreve. Lembro destes discos coloridos, que até pouco tempo atrás, os meus filhos guardavam em alguma caixa. Lembranças…
      Bjos.

    • 16 peka // 12 12 2007 às 17:20

      gostei muito dos vossos contos sao fantasticos e muito lindos

    • 17 Lady Cronopio // 18 12 2007 às 12:22

      Emocionante.
      Quem teve infância com estes disquinhos entende bem…
      Acredita que ainda sei algumas histórias de cor?
      E outro dia, via na TV que eles foram relançados em CD.
      Tem um lenço aí?
      Não deu pra conter a lágrima…

    • 18 Helena // 22 12 2007 às 8:43

      História linda Alexandre…
      eu amei… pena que a minha infância não fora de LPs, eu tenho 15 anos…
      eu amei mesmo a sua história…

      Beijos!

    • 19 Robson // 24 12 2007 às 10:44

      CARA OLHA EU AQUI DEPOIS DE TANTOS ANOS E A HISTÓRIA AINDA SE FIRMA COMO UMA CORRENTE… NAUM VOU QUEBRAR ESSA CORRENTE vou passá-la adiante, naum vou ser egoísta…
      PARABENS…

    • 20 maria mendes pedrosa e silva // 20 11 2008 às 8:14

      liiiiiiiiiiiiiiiiinda a historia ameei parabens….

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