Seria hipocrisia afirmar, principalmente no que diz respeito às artes, que o jornalista é imparcial.Não é preciso ser um Rui Barbosa para saber que os jornais assumem sim posturas pró ou contra determinado assunto. De fato, na prática, “ouça os dois lados” é o máximo que vai se ouvir por parte da chefia de redação. O jornalista, dentro do possível, assume um lado - e, se tem coragem, assume realmente, sem a máscara de uma suposta e ficcional imparcialidade. De fato, em se tratando de teatro, há um lado a ser assumido.
E ele é o lado de fora. O lado de fora do palco.
Tenho visto nas platéias, digo, na parte do jogo cênico onde estão as pessoas que se deslocaram para um teatro ou espaço alternativo - tais como hospitais, telefones públicos e cemitérios - a face da perplexidade. O jornalista acaba por se identificar com essas pessoas, visto que leu um ou dois livros sobre artes cênicas, assistiu já a duas ou três peças e leu alguns (não muitos) textos famosos. Portanto, admite que - a exemplo das 57 (estimativas, estimativas) pessoas que vão freqüentemente ao teatro em Curitiba fora do período do FTC - não chega ser um especialista no assunto, como o são os Ph.Ds, diretores, atores e dramaturgos.
Assume portanto as dores desses que acabam como cobaias de pesquisas estéticas e congêneres e que formam uma massa meio sem face, a que se decidiu chamar de “o público”.
O Festival de Teatro de Curitiba se avizinha e talvez já seja tarde. Mas, ainda que na iminência do desastre, elaborei um pequeno manual para as companhias a fim de que elas não prejudiquem perante as platéias a imagem de bons artistas que compartilham o nome desta arte - teatro -, independentemente de ela ser bem ou mal executada.
Sobre as elocubrações
Nas faculdades, sobretudo nas de formação humanística, são comuns as acaloradas discussões sobre a pós-modernidade. Esse verdadeiro fantasma - que no tempo da Escola de Frankfurt, era apenas um pequeno ectoplasma lambedor de pirulitos - fala de coisas como o pastiche e da perda da aura da obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica em um ambiente dessacralizado. Essas questões não interessam ao público. Se existe a proposta de levar o conteúdo de um espetáculo a tal ponto e a quiosques ainda mais elevados do conhecimento sobre-humano, então, que as discussões fiquem nas coxias. Ou que os atores discutam baixinho, para não atrapalhar o andamento da montagem e para que todos ouçam as falas realmente interessantes.
Sobre as citações
É comum, na falta de textos melhores, os espetáculos citarem a esmo trechos de peças consagradas, para desespero do público menos ilustrado. É possível encontrar exemplos que vão desde falas de Um Bonde Chamado Desejo, de Tenessee Williams, passando por A Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, chegando a Pluft, O Fantasminha, de Maria Clara Machado. Aqueles que conhecem um pouco mais de teatro podem brincar de “encontre a citação” e cutucar animadamente seu vizinho quando achar alguma, demonstrando assim toda a sua erudição, conhecimento e poder mental. A sugestão para diretores desse tipo de montagem é que, no momento específico da citação, o ator vista uma espécie de chapéu ornado à direita e à esquerda com aspas. O chapéu pode ganhar inclusive o original nome de “aspas”. O resto é silêncio. Ou melhor, “o resto é silêncio”.
Sobre os longos silêncios
Se houver a necessidade de longos silêncios dramáticos no espetáculo, o ideal é que se use antes da metade da peça. Depois disso, há uma tendência de que o público ache que a peça acabou ou, então, que finja estar enganado para não perder a oportunidade de ir embora.
Sobre espetáculos performáticos
Atualmente, não só os artistas mas as artes têm uma tendência muito grande de se confundirem. Isto é, enquanto aqueles se apresentam espacialmente desorientados em um universo criativo em expansão, estas mesclam seus domínios, tornando difícil saber onde começa uma e termina outra. É o que acontece com a chamada performance. Certamente há uma complexa explicação que encheria esta página, mas para o público não interessa muito saber o que fez, de repente, o ator se acreditar artista plástico e o artista plástico se acreditar ator. Talvez o mesmo tipo de enfermidade que fez,subitamente, uma infinidade de modelos deixar as passarelas para abraçar os palcos. O fato é que poucos desempenham a assim chamada “performance” de maneira agradável.
Sobre o rei estar nu
É conhecida a fábula do rei que contrata um tecelão picareta que lhe cobra uma nota por uma roupa que só é vista pelas pessoas de caráter imaculado. Como ninguém quer admitir que não tem caráter, o rei que na verdade foi enganado passa a desfilar peladão lá por aquelas bandas. A fábula se aplica àquelas peças enigmáticas sobre as quais ninguém tem coragem de admitir não ter entendido patavina. Favor não compreender esse item como uma sugestão para fazer uma montagem em uma praia de nudismo. Peças por demais enigmáticas podem estar escondendo falta de conteúdo. Ao mesmo tempo em que cada um da platéia acha que sabe de menos, a equipe posa de revolucionária e incompreendida.
Sobre as pesquisas estéticas
As pesquisas estéticas vão bem a julgar por sites como este e este
Sobre os banbanbans
A exemplo de algumas artistas, globais ou não, que aproveitam a vantagem econômica e de popularidade oferecida pelas revistas masculinas tais como Playboy e Sexy, desde que exibiu as nádegas, o prestígio de Gerald Thomas cresceu vertiginosamente, sobretudo no campo forense. Isso não chega a ser novidade. José Celso, quando apresentou a peça Ela, de Jean Genet, na Ópera de Arame fez questão de exibi-la (a dele, não a de Gerald) para o público, separando as polpas inclusive, possibilitando uma visão ainda mais detalhada de sua anatomia, pregas e demais órgãos mais internos que externos. Não houve a mesma repercussão, no entanto. Ninguém disse nada. O fato é que é conhecida a predileção por esses homens de teatro entre os professores de algumas faculdades de Curitiba. E, realmente, não há como negar sua importância para a história do teatro nacional, para bem ou para mal. Mas incentivar os alunos, ainda sem a devida erudição necessária, a seguir os seus passos no que diz respeito a experimentalismo seria o mesmo que pedir que estudantes da quarta-série brincassem com soda cáustica sem o devido conhecimento de química e sem o imprescindível senso de noção. É preciso que alguém explica a essas jovens mentes intelectuais em formação que mostrar a bunda nem sempre é teatro.
Sobre dramaturgia
Já se falou em item anterior sobre a ausência de bons textos entre os espetáculos atuais, como se essa história de começo, meio e fim estivesse ultrapassada e fosse chata. Não que o público exija começo, meio e fim. Não é preciso que eles estejam nessa ordem e sequer é preciso que todos eles existam em um espetáculo. Mas antes de extirpar esses fragmentos dispensáveis de uma peça, façam uma pergunta, com muito carinho em relação ao público: “Eles vão se divertir?”. É chato ter que usar um exemplo do cinema, mas o filme Dogville, de Lars Von Trier, ainda em cartaz na Cinemateca, mas ele pode ser visto diariamente em duas sessões e, portanto, é acessível para quem esteja ocupado com ensaios, preparação de cenário e confecção de figurinos. O filme traz uma história com começo, meio, fim, personagens simples, diálogos (talvez vocês não lembrem: diálogo é aquele momento em que um personagem conversa com outro e o outro responde algo que de alguma forma está conectado logicamente com a fala anterior).
E, com essa forma absolutamente singela, trata de questões de profundo significado ético nas quais o público pode se aprofundar. Se quiser.
Se preferir, pode apenas assistir a uma boa história sem a perturbadora impressão de que perdeu seu dinheiro e seu tempo.



2 comentários até agora ↓
1 Léo Glück // 27 12 2004 às 23:52
Isto é, definitivamente, coisa que eu não comento mais! Adoro comunicar pouca coisa, pois você já comunica MUITO pouca coisa! E esse mérito é todo teu, Alessandro (ou talvez devo chamá-lo de Moby tupiniquim?)!!!
p.s.: Ah… sem rancores nem mágoas… e você é muito sexy também, gostaria de tê-lo dentro de mim.
L.Glück
{Companhia Silenciosa}
2 Zilah // 28 12 2004 às 2:28
Alessandro Super Cult
Aprenda mais sobre arte. Você ainda não entendeu nada.
Deixe um comentário