Como uma crítica negativa se solda à obra de um cartunista da província
Daqui a 50, daqui a 100 anos, a página em que o crítico Paulo Polzonoff Jr. desceu a lenha em algum livro do cartunista Solda permanecerá a disposição daqueles que a quiserem ler. Quem afirmou foi o próprio cartunista em seu artigo de humor da revista Caderno de Idéias, número 14, ano 2.
Humor, de fato. Pois talvez ele tenha sido modesto.
Realmente, é possível que o artigo do crítico - hoje no Rio de Janeiro e afastado da pequenez das vaidades literárias, categoria na qual não ouso incluir Solda - sobreviva aos séculos e aos milênios, como uma mancha horrenda a macular eternamente a glória dos rabiscos do excelso curitibano.
Imagino um estudante de jornalismo, digamos em 2216, a pesquisar em alguma biblioteca as encadernações em que as edições do Jornal do Estado são cuidadosamente arquivadas. Não sem uma requisição expressa do reitor de sua universidade para que o diretor da biblioteca permita examinar páginas tão raras, justamente no ano em que o Brasil alcança o vigésimo título do futebol mundial.
Este verdadeiro arqueólogo da notícia, então, não sem antes balançar sua requisição coroada de carimbos no focinho de um sem-número de funcionários públicos, adentra a sala onde ficam os volumes mais antigos. Ele penetra surdamente no reino das palavras (ah, Drummond…) e finalmente encontra o que procura: as encadernações do Jornal do Estado do ano de 2001.
“Não foi nesse ano que aquelas torres gêmeas caíram… foi um ataque terrorista ou um terremoto?”, pensará. Sem lembrar, no entanto. “Como os engenheiros eram primitivos naquela época…”, concluirá.
E tais serão seus pensamentos enquanto coloca luvas para que a gordura de seus dedos não destrua o papel antigo que começa a virar pó. De forma alguma passará por sua cabeça que um dia, em 2004, em um evento chamado Festa Literária Internacional, em Parati - uma cidade que talvez nem exista mais - deu-se um encontro inesperado.
Um crítico, jovem mas impetuoso, decidiu se redimir do que julgou ter errado no passado. Procurou então um certo cartunista que pensou ter criticado de uma forma talvez excessiva. Educadamente pediu desculpas.
No entanto, esse cartunista, cercado de um e outro poeteco da província onde vive a título de séquito, as recusa. Afinal, o que está ali escrito permanecerá ao longo das gerações, manchando o nome deste que em tenra idade (perdão pelo lugar comum) já era o bambambam do cartum na cidade de Curitiba, com direito a prefácio de Jaguar e abraço de Ziraldo - mesmo os grandes, tão grandes quanto o ofendido e a ofensa, precisam se apoiar nos maiores.
Impossível, no entanto, interpretar tal atitude de um nome tão importante do cartum como babaquice. Mesmo que ela soe arrogante, vinda da grandiosidade, da experiência e da maturidade de seus cinqüenta, sessenta anos, em direção ao criticozinho - como ele o chama - a sinceramente pedir desculpas sobre o pódio baixinho de seus 26 anos.
Impossível dizer também o que seria mais lícito da parte do cartunista: escrever sobre um artigo que deve completar por baixo aí seus três anos de idade - e de esquecimento - ou escrever (com direito a trocadilho de baixo calão com o nome do crítico e envolvimento de sua namorada na história) sobre uma demonstração de arrependimento que deveria ser encarada de forma íntima, discreta e elegante. Não devemos julgar as atitudes e as escolhas dos grandes pois estão muito além de nossa medíocre compreensão. Nem devemos julgar levianas acusações de morte por eles proferidas. Leviandade é coisa dos pequenos, ou seja, nós.
Porém, o tal crítico, não contente com o que enfretou, decide pedir, então, desculpas a um outro escritor, talvez não tão importante quanto o cartunista. Este, chamado Moacyr Scliar, no entanto mostrou-se bem mais receptivo, talvez ciente de sua não importância no cenário literário. Aceitou as desculpas. E ao ouvir o jornalista dizer que, de fato, não havia gostado de algumas de suas últimas obras, que respeitava, porém, seu trabalho como um todo e que talvez tivesse cometido alguns exageros por conta da pouca idade, o escritor gaúcho responde: “Acho que seu talento compensa qualquer exagero.”
Uma sentença que alguns preferirão interpretar — talvez por ser mais confortável a suas convicções — como uma típica ironia gaúcha.
Mas voltemos ao nosso heróico estudante de jornalismo do ano 2216, nosso Buck Rogers literário.
Ele - subitamente atacado pela rinite, devido ao pó (quando é que os médicos vão arranjar solução pra isso?) - vira a fatídica página onde, no alto, lê-se Espaço 2, o caderno onde o terrível artigo foi publicado. Começa a ler. É algo sobre um cartunista conhecido como Solda escrito por alguém chamado Paulo Polzonoff Jr.
No entanto, antes mesmo de iniciar a leitura do primeiro parágrafo, eis que algo lhe chama a atenção. Um anúncio de liqüidificador. “Mas eles usavam liqüidificadores nessa época?”, pensa intrigado, antes de, com cuidado, virar novamente a página que permanecerá fechada por mais alguns séculos. Isso se uma gota de corisa - lembremos que o estudante sofre de rinite - não colar o alfarrábio. Corisa, não. Ranho mesmo. Verde e gosmento.
“Mas, afinal, o que é exatamente um liqüidificador?” Enquanto isso, enquanto ele faz essas indagações efêmeras mas mais importantes que o artigo, temos a seguinte realidade: Paulo Polzonoff Jr., Luiz Antonio Solda, você, leitor, Alessandro Martins — este que agora escreve — e talvez até esta cidade de Curitiba são nada mais nada menos que pó. Possivelmente, menos.
Restará apenas a mácula, a mácula horrenda sobre a obra do cartunista Solda que, mesmo após o fim do mundo, irá pairar. Tal mancha flutuará incólume no infinito do espaço e do tempo.
Para o deleite dos que cultivam o ressentimento e a vaidade.
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