Mensagem em garrafa

22 4 2004 por Alessandro Martins
· 2 comentários

Por exemplo, saber fazer uma mensagem em uma garrafa é profundamente científico.Dos vegetais tomo a celulose para o papel e a cortiça para a rolha que fechará o recipiente.

Dos minerais, a areia de que é feito vidro e também o derivado do petróleo que me dá a tinta.

Dos animais no caso de querer sofisticar a coisa toda com nanquim verdadeiro, surrupiado de algum polvo.

Mas uma mensagem em uma garrafa é algo mais complexo que isso.

Alguém precisou soprar o vidro. Um outro prensou o papel. Outro fez a rolha e alguém pescou um polvo. Reservo então esse material todo para posterior uso.

Antes quero pensar em uma náufraga, sozinha em uma ilha deserta. Penso na sensação de estar afastada dos acontecimentos do mundo, cercada de água por todos os lados. Poderia ser até mesmo aqui, nessa casa, nesse quarto, acordada, enquanto todas as outras pessoas no mundo dormem ou vivem.

A mensagem em uma garrafa é uma forma de tentar participar da vida quando se tem a impressão de que não se está participando. Não se sabe se ela vai chegar aos olhos de alguém, nem se ele estará vivo quando isso acontecer.

Prefiro ver agora como anda nosso artesão a soprar o vidro.

Ele tem uma família, uma casa, um cão. Levanta da cama todos os dias e faz garrafas. Antes de chegar ao trabalho, pára na padaria e toma um café. A garrafa que ele faz é do tipo que armazenará vinho. Felizmente, para nosso náufrago, é do tipo de vinho vulgar que não ficará muito tempo armazenado.

O outro artesão que fabrica o papel, não chega a pensar na árvore que lhe rendeu aquela celulose que agora espreme e transforma em finas lâminas brancas e maleáveis. Ele também tem uma casa e família. Não tem um cão. Talvez tenha visto um passar a sua frente - quem sabe se não é o do fabricante de garrafas -, quando passou próximo à panificadora sem entrar, pois tomou café em casa. O papel que produz é usado para blocos de anotações. Coisas como: “Querida, vou ficar mais dias no mar.”

É o que escreveria, na madrugada de uma segunda-feira, o pescador. O mesmo que, por engano, depois dos dias a mais que permaneceu no mar, trouxe em suas redes o polvo do qual, de uma vesícula, foi extraído o nanquim.

“Querida, vou ficar mais dias no mar.” É o que escreveria, pois não sabe escrever e não imaginava que ficaria mais tempo no mar. Pescar é uma atividade incerta como também incerta foi a presença do polvo em sua rede. O nanquim costuma ser expelido quando o polvo é perseguido, para confundir o seu predador. Por outro acaso, aquele ali, na rede, não havia sido perseguido recentemente ou tampouco se sentiu na obrigação de expelir sua tinta ao se ver preso.

Ao chegar à praia, o pescador foi recebido por diversos cães, à espera de alguma sobra, alguma lasca, alguma víscera. E, entre eles, quem sabe, o cachorro do fabricante de garrafas.

Quanto à rolha, poucos sabem que a cortiça, sua matéria-prima, é extraída de uma árvore chamada sobreiro, que existe em quantidade em Portugal, Espanha e norte da África, sendo que a primeira safra é obtida quando a árvore tem 25 anos. Aos 80 anos a árvore produziu 200 quilogramas de cortiça. Se essas árvores e suas peculiaridades não existissem, portanto, seria impossível, no mínimo difícil, mandar uma mensagem dentro de uma garrafa.

Certa vez, um cão fez xixi em um sobreiro.

Um tempo depois, tenho uma náufraga em uma ilha deserta com uma garrafa (feita a partir de areia), um pedaço de papel (de celulose extraída de alguma árvore), uma rolha (do sobreiro) e um pouco de tinta (de um polvo). Todas essas coisas ali foram parar como acontece nos naufrágios: por acaso.

Ela está meio bêbada, pois tomou o conteúdo da garrafa, um vinho nem bom nem ruim, mas suficiente para desbotar um pouco as mágoas e, por outro lado, elevar um pouco os ânimos a ponto de lhe inspirar a escrever.

Umideceu um graveto no nanquim, fez pequenas letras no papel, enrolou-o, meteu-o na garrafa, fechou-a com a rolha e a atirou ao mar, para além da arrebentação, onde a corrente marinha vai se encarregar de levá-la para algum lugar distante para alguém que queira ler o que ela escreveu.

Talvez ela seja encontrada pelo pescador. Que não a lê, pois não sabe como, e envergonhado a esconde.

Quem sabe caia nas mãos do fabricante de garrafas. Que, admirado de ver o produto de seu sopro na areia, o atira de volta ao mar ou novamente a enche de vinho.

O fabricante de papel é improvável, pois não costuma freqüentar a praia.

O homem que extrai a cortiça não mora por ali.

O cão vai farejar o estranho objeto e, sem entendê-lo, vai embora.

Mas o mais provável é que ela jamais chegue a algum lugar. O mais certo é que, com o tempo, a rolha se solte e ela se encha de água, ou volte para a mesma ilha de onde ela foi lançada, trazida pela maré.

Interlúdio
A nave Voyager 1, no espaço há quase 30 anos, e está a quase 15 bilhões de quilômetros de distância da Terra. Nunca um objeto feito pelo homem esteve tão longe. Ela leva um disco, um LP feito em ouro. O viajante espacial que a encontrar poderá ouvir saudações em cinqüenta e cinco línguas diferentes. Também conhecerá os sons das ondas, trovões, aves, baleias e outros animais. Certamente também ouvirá os latidos de um cachorro. Não se sabe se ela chegará até algo ou alguém. As possibilidades não são otimistas. Ficamos aqui, porém, esperançosos de não estarmos sozinhos. Pois certa vez, olhamos as estrelas com outros olhos e simplesmente dissemos olá.

Pequeno epílogo
Para fazer uma mensagem em uma garrafa basta ter uma garrafa, um pedaço de papel, uma rolha, tinta. E, claro, uma mensagem escrita com aquela ânsia de nunca, nunca, nunca estarmos verdadeiramente solitários.

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    Tags: Crônicas e contos

    2 comentários até agora ↓

    • 1 evilacio // 25 2 2005 às 8:45

      por esse tipo de texto é que sou fã do cracatoa…(e poderia escrever isso em uma camiseta, que, com certeza, venderia bem…)

    • 2 Alessandro Martins // 25 2 2005 às 8:56

      Com certeza teremos uma camiseta para você, Evilácio! Esse, na verdade, foi o primeiro texto que eu escrevi no site do Polzonoff ainda… quando eu nem imaginava, ainda ter um domínio próprio…